quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Senhora, partiram as naus e já não existes,
foi curto o tempo da felicidade,
ficaram tantas coisas por fazer
e o tempo é um oceano que tudo submergirá.
Tenho saudades de água e medos de marinheiro
a quem proibiram aproximar-se da praia
podendo vê-la de longe, ao anoitecer
quando a própria água se confunde com a impossibilidade.
Guardo os mapas e os vestígios das viagens,
tenho gavetas cheias de inutilidades,
coloquei o aquário vazio no meu quarto
e é nele que navego quando todos dormem.
Senhora, tornaste-te impossibilidade
mas morta não estás porque eu existo.

Silêncio somos

Silêncio somos ainda que ruidosos,
vestimos a serenidade como um fato de cerimónia,
fingimos sentimentos tranquilos,
poderíamos até regressar à infância
se não tivéssemos uma urgência absurda de destruir a esperança.
Já ninguém nos conta as histórias de antigamente
e somos órfãos da felicidade que nunca tivemos.
Por vezes temos os gestos de quem resiste ao desespero
e nos olhos perpassam azuis de horizontes impossíveis.
São porém efémeros esses momentos
e regressamos à seriedade das estátuas,
conscientes de que a magia foi erradicada
e de que não vale a pena querer mudar o mundo.
Temos relógios com as horas certas
e partilhamos códigos e solidões.
Antecipamos os cadáveres e disso temos consciência.
O silêncio será sempre a nossa última identidade.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O ciclo de Ulisses (5)

Ulisses foi talvez o último sonho de Penélope,
o derradeiro nome misturado com as imagens
e entre elas havia a imagem de uma ilha,
simples miragem ou algo ainda mais importante.
Foi só mais tarde que um poeta cego lhe chamou Ítaca,
terra dos homens que se esqueciam de si
e partiam sem sair do lugar para outras paragens.
Penélope era descendente de uma antiga deusa
e guardava um amuleto, um espelho e uma lágrima
que diziam ser da última sereia.
Penélope tinha desistido do seu destino
e recuperava a sua figura de mulher.
Quando deixou de sonhar com Ulisses,
Penélope abandonou Ítaca sem olhar para trás
mas dela só eu sei a ausência.

O ciclo de Ulisses (4)

Ficaram célebres as artimanhas de Ulisses.
Homero falou de algumas delas nos seus poemas
mas também ele cumpriu a vontade dos deuses
e obrigou Ulisses a regressar a Ítaca.
Dizem que os heróis conseguem ultrapassar a morte
mas Ulisses era demasiado humano
e envelheceu naturalmente na sua ilha,
condenado a viver apenas na memória dos homens.
o Próprio Homero que inventou as histórias
ficou prisioneiro das palavras e das suas sombras,
teve a raiva de Polifemo e a paciência de Penélope
para acabar como todos os poetas
confundindo o mundo com um horizonte de água.

O ciclo de Ulisses (3)

Penélope tecia com cuidado a teia
com que prendia Ulisses em Ítaca.
Penélope fechava as janelas que davam para o mar
e apagava nos livros as histórias de Ulisses
substituindo-as por longas recitações aos deuses.
Penélope fingia não ver o desespero de Ulisses,
tecia ininterruptamente a sua teia
e procurava envelhecer rapidamente.
Não sei qual deles morreu primeiro
mas Ulisses continuou prisioneiro da teia de Penélope
e não houve mais viagens nem desafio aos deuses.

O ciclo de Ulisses (2)

Ulisses tinha contactos com os deuses
e guardava ainda a imagem do gigante Polifemo,
desesperado e cego na orla da praia
a insultar o destino e toda a humanidade.
Ulisses tinha Penélope
e o sonho de voltar às viagens,
capitão de um barco que descobre horizontes.
Ulisses espera o convite
e é urgente o seu olhar sobre o oceano,
aquático pássaro que recusa a prisão da morte.

O ciclo de Ulisses (1)

Ulisses regressou a Ítaca
depois de ter viajado durante dezassete anos,
o tempo suficiente para não ver crescer o filho.
Ninguém o reconheceu a não ser o cão
porque os cães não se deixam enganar pela passagem do tempo
e são fieis mesmo para além do suportável.
Ulisses derrotou os pretendentes
matando-os um a um com uma crueldade meticulosa
mas Penélope tinha já abandonado a história
cansada de esperar por um final feliz.
Ulisses entretanto envelheceu sozinho
e as memórias da viagem foram-se apagando
até que duvidou que alguma vez a tivesse feito.
Eu sou o filho ignorado de Ulisses,
reinvento as aventuras inexistentes do meu pai
e procuro ainda a minha mãe numa insistência inútil
porque sei que só sem Ulisses ela poderá ser feliz.