domingo, 9 de novembro de 2008

As palavras

As palavras podem ser facas e espadas,
instrumentos subtis de libertar o sangue
e manter os homens nos limites dos seus medos.
As palavras são arcaicos estratagemas de tortura
inventados por antigas deusas insubmissas
que foram com elas reduzidas ao esquecimento.
As palavras são espelhos sem profundidade
substituída pelas sombras e o prenúncio de abismos
e quando me olho neles
fico sem saber da minha verdadeira identidade.
As palavras são feiticeiras que perderam o poder
mas retêm ainda a magia da sua impotência.
Houve um tempo em que fui delas escravo
e mesmo agora que sou vítima da desilusão
recuso-me a abdicar do seu sortilégio.
As palavras são as chaves da memória,
pesam-me no bolso como se fossem pedras
e por vezes abro portas que deviam ficar fechadas.
Desesperadamente anseio por um mundo de silêncios,
o universo de antes da criação das palavras,
o caos que anula a própria realidade.
As palavras podem ser esqueletos dos sentimentos,
aquilo que sobrou dos gestos e dos olhares,
a carbonizada memória do que só existiu na nossa imaginação
ou os remorsos por aquilo que necessariamente deveriamos ter feito.
As palavras são algemas e máquinas do tempo,
prendem-nos nos intervalos da evidência
e transportam-nos ao outro lado das coisas
ultrapassando as fronteiras e as esfinges de areia
com que nos habituamos a constituir os dias.
As palavras mentem tudo quanto dizem
e no entanto só nelas pode haver a verdade.
Quase em segredo sonho com o silêncio sem palavras,
um silêncio nevoeiro sem consistência nem profundidade
mas mesmo assim são necessárias as palavras
para que o silêncio tenha significado.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Terminou o meu tempo de Ulisses,
pobre Ulisses que tinha a sua Penélope em Ítaca
e acreditava que a felicidade seria eterna.
Os deuses em que não acredito
castigaram-me por ser humano e livre,
quiseram que me tornasse submisso e crente,
mas mesmo infeliz e sem Penélope
recuso-me a abdicar da minha consciência.
Talvez seja esse o pior castigo,
o não poder abandonar-me a qualquer fé
e aceitar transformar a minha vida em destino.
Se fui Ulisses com Penélope e Ítaca
sou agora apenas eu a sobreviver ao desespero.
Continuo a ignorar os deuses;
não os desafio porque só se combate o que existe,
não os invoco em vão nem os critico,
apenas vivo sem a sua bênção ou maldição.
Não acredito em paraísos aqui ou noutro lugar qualquer,
lugar reservado somente para os obedientes,
aqueles que seguem fielmente a voz dos seus donos.
Terminou o meu tempo de Ulisses
mas uma coisa sei:
não estarei presente no meu funeral.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Minha senhora do nunca mais e da saudade,
Anúncio de todas as impossibilidades,
Rio que subitamente secou na origem,
Imagem que o tempo apaga no espelho
Antes de a memória se fixar no papel

Entretanto a vida continua,
Mil vozes ecoam no vazio,
Inesperados silêncios são sinal de desespero,
Lentas são as horas que se vão acumulando,
Irritantes e solenes, cruéis,
Antecâmaras de uma realidade que ficou suspensa
Sem ti só me chegam os ecos das coisas
e sinto-me como que cego de sentimentos.
Tudo é náusea e sonolência pesada,
imagens daquilo que poderia ter sido
e a sensação absurda de que o tempo é irrecuperável.
Sem ti sou menos eu, a incompletude,
o vazio que preencho com palavras,
as únicas companheiras que me restam.
Eu sei que as palavras são poços que escondem a profundidade
ou armadilhas que usamos para defraudar a passagem das horas
mas nelas posso ter acesso aos teus reflexos.
Eu sei que as palavras podem ser perigosas sereias
que nos desviam das viagens e nos abandonam
depois de nos seus corpos perdermos a pureza do olhar
mas sem elas o silêncio seria mais insuportável.
Sem ti o mundo ficou mais pequeno
e quase que se reduziu às minhas sensações.
sei que lá fora a vida acontece independentemente das palavras,
independentemente de mim
ou de todos aqueles que involuntariamente sofrem
e trazem o peso das coisas sobre as suas costas.
Sei que o que sou e o que sinto
é talvez nada comparado com outras situações
mas nunca quis experimentar o papel de vítima
nem nunca imaginei a tua ausência.
Sem ti há súbitos desertos onde antes havia oásis
e sei agora que isso só era possível por tua causa,
eras tu a água e eu não sei onde matar a sede.
Que farei quando as palavras se tornarem inúteis
e nada mais justificar a tua ausência?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Não sei o verdadeiro nome do desespero
mas calculo que as palavras que o compõem arranham na garganta,
deixam a boca em carne viva
e as feridas nunca cicatrizarão
porque até o tempo é impotente para o combater.
Alguns insistem em que é negro o desespero,
a cor do seu vazio interior,
mas a verdade é que ele é ausência.
Há verdadeiramente muitas coisas que não sei
e preferia não ter que sentir o desespero
porque nos deixa espinhos no lugar dos sentimentos.
Sabes, Emília, com quantos silêncios se preenche o desespero?
Talvez neste momento já conheças todas as respostas
mesmo para aquelas questões que nunca teremos coragem de colocar.
Talvez tenhas conseguido a serenidade que procuravas
e possas finalmente descansar.
Sabes, Emília, apesar de tudo a vida continua
e os dias vão-se sucedendo no calendário.
Talvez estejas apenas à minha espera
e nessa altura já não serão necessárias as palavras.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Mantenho-te viva na memória
Anjo ou deusa que foi real na fugacidade do momento
Rio a desaparecer no lugar da origem
Imóvel movimento que os espelhos já não captam
Anterioridade de um futuro tornado passado.

Enquanto me restarem as palavras para falar de ti,
Múltiplas formas de te ter presente,
Inquieta memória que quero persistente,
Lentamente irei consumindo os dias
Impossibilitado de fazer retornar o tempo
Ainda e sempre teu prisioneiro em liberdade.