Os dias apesar de tudo persistem na cadência morna,
os silêncios substituem as palavras mortas
e eu deixo que tudo à minha volta se misture
até que a atmosfera de labirinto seja a única verdade.
Os relógios continuam a ser objectos absurdos,
generais das guerras interiores dos sentimentos,
carcereiros do tempo e mensageiros da inutilidade.
Estou condenado a ser um arqueólogo das memórias,
converto-as em imagens, em fragmentos de vida,
em palavras que só em mim têm sentido.
Os meus dias são pesadas sonolências
de quem não acorda de um infindável pesadelo.
Apesar de tudo não me sinto abandonado pelos deuses
porque o destino não existe
e os deuses só têm poder sobre quem neles acredita.
Nos calendários os ciclos do tempo institucionalizam-se
e podemos fingir que algumas datas têm importância
esquecendo que de ano para ano apenas ficamos mais velhos,
mais cansados de ransportar a vida às costas
carregando com ela todas as nossas ilusões frustradas.
Os meus dias são assim, de viúvo de mim próprio
com raiva de não poder rasgar os calendários.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
domingo, 9 de novembro de 2008
Tenho medo de te ir a pouco e pouco perdendo na distância.
As memórias que de ti tenho são como as páginas de um livro
e por vezes é impossível reler o que foi escrito.
O que mais custa porém é não poder terminar o livro
e preencher as folhas que ficarão em branco.
Não te quero fantasma a assombrar-me a vida
mas recuso-me a que só faças parte do passado.
Confesso que tenho medo que de ti só reste a saudade
e ainda não sei como sobreviver à tua ausência.
As memórias que de ti tenho são como as páginas de um livro
e por vezes é impossível reler o que foi escrito.
O que mais custa porém é não poder terminar o livro
e preencher as folhas que ficarão em branco.
Não te quero fantasma a assombrar-me a vida
mas recuso-me a que só faças parte do passado.
Confesso que tenho medo que de ti só reste a saudade
e ainda não sei como sobreviver à tua ausência.
Estou em prisão domiciliária,
prisioneiro de mim e dos meus fantasmas.
A prisão tem a dimensão dos meus medos e da minha memória
e cresce e diminui ao ritmo dos dias.
As janelas que invento vão construindo as paredes
e escrevo com a teimosia de quem vive nas palavras
sem no entanto as confundir com a realidade.
Não sonho uma liberdade que me tornasse menos eu,
mais igual aos cânones de uma qualquer felicidade automática,
não sonho paraísos que nos fazem esquecer que somos humanos
em troca de uma estática bem-aventurança.
No corpo arde-me a ausência de ti
e o desespero é saber que não posso recuperar-te.
Não é o destino que me retém dentro de mim
e não quero transformar os dias em rituais de tortura;
por enquanto a minha vida é isto
e sou incapaz de imaginar uma outra realidade
que não violente os sentimentos que tenho.
prisioneiro de mim e dos meus fantasmas.
A prisão tem a dimensão dos meus medos e da minha memória
e cresce e diminui ao ritmo dos dias.
As janelas que invento vão construindo as paredes
e escrevo com a teimosia de quem vive nas palavras
sem no entanto as confundir com a realidade.
Não sonho uma liberdade que me tornasse menos eu,
mais igual aos cânones de uma qualquer felicidade automática,
não sonho paraísos que nos fazem esquecer que somos humanos
em troca de uma estática bem-aventurança.
No corpo arde-me a ausência de ti
e o desespero é saber que não posso recuperar-te.
Não é o destino que me retém dentro de mim
e não quero transformar os dias em rituais de tortura;
por enquanto a minha vida é isto
e sou incapaz de imaginar uma outra realidade
que não violente os sentimentos que tenho.
As palavras
As palavras podem ser facas e espadas,
instrumentos subtis de libertar o sangue
e manter os homens nos limites dos seus medos.
As palavras são arcaicos estratagemas de tortura
inventados por antigas deusas insubmissas
que foram com elas reduzidas ao esquecimento.
As palavras são espelhos sem profundidade
substituída pelas sombras e o prenúncio de abismos
e quando me olho neles
fico sem saber da minha verdadeira identidade.
As palavras são feiticeiras que perderam o poder
mas retêm ainda a magia da sua impotência.
Houve um tempo em que fui delas escravo
e mesmo agora que sou vítima da desilusão
recuso-me a abdicar do seu sortilégio.
As palavras são as chaves da memória,
pesam-me no bolso como se fossem pedras
e por vezes abro portas que deviam ficar fechadas.
Desesperadamente anseio por um mundo de silêncios,
o universo de antes da criação das palavras,
o caos que anula a própria realidade.
As palavras podem ser esqueletos dos sentimentos,
aquilo que sobrou dos gestos e dos olhares,
a carbonizada memória do que só existiu na nossa imaginação
ou os remorsos por aquilo que necessariamente deveriamos ter feito.
As palavras são algemas e máquinas do tempo,
prendem-nos nos intervalos da evidência
e transportam-nos ao outro lado das coisas
ultrapassando as fronteiras e as esfinges de areia
com que nos habituamos a constituir os dias.
As palavras mentem tudo quanto dizem
e no entanto só nelas pode haver a verdade.
Quase em segredo sonho com o silêncio sem palavras,
um silêncio nevoeiro sem consistência nem profundidade
mas mesmo assim são necessárias as palavras
para que o silêncio tenha significado.
instrumentos subtis de libertar o sangue
e manter os homens nos limites dos seus medos.
As palavras são arcaicos estratagemas de tortura
inventados por antigas deusas insubmissas
que foram com elas reduzidas ao esquecimento.
As palavras são espelhos sem profundidade
substituída pelas sombras e o prenúncio de abismos
e quando me olho neles
fico sem saber da minha verdadeira identidade.
As palavras são feiticeiras que perderam o poder
mas retêm ainda a magia da sua impotência.
Houve um tempo em que fui delas escravo
e mesmo agora que sou vítima da desilusão
recuso-me a abdicar do seu sortilégio.
As palavras são as chaves da memória,
pesam-me no bolso como se fossem pedras
e por vezes abro portas que deviam ficar fechadas.
Desesperadamente anseio por um mundo de silêncios,
o universo de antes da criação das palavras,
o caos que anula a própria realidade.
As palavras podem ser esqueletos dos sentimentos,
aquilo que sobrou dos gestos e dos olhares,
a carbonizada memória do que só existiu na nossa imaginação
ou os remorsos por aquilo que necessariamente deveriamos ter feito.
As palavras são algemas e máquinas do tempo,
prendem-nos nos intervalos da evidência
e transportam-nos ao outro lado das coisas
ultrapassando as fronteiras e as esfinges de areia
com que nos habituamos a constituir os dias.
As palavras mentem tudo quanto dizem
e no entanto só nelas pode haver a verdade.
Quase em segredo sonho com o silêncio sem palavras,
um silêncio nevoeiro sem consistência nem profundidade
mas mesmo assim são necessárias as palavras
para que o silêncio tenha significado.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Terminou o meu tempo de Ulisses,
pobre Ulisses que tinha a sua Penélope em Ítaca
e acreditava que a felicidade seria eterna.
Os deuses em que não acredito
castigaram-me por ser humano e livre,
quiseram que me tornasse submisso e crente,
mas mesmo infeliz e sem Penélope
recuso-me a abdicar da minha consciência.
Talvez seja esse o pior castigo,
o não poder abandonar-me a qualquer fé
e aceitar transformar a minha vida em destino.
Se fui Ulisses com Penélope e Ítaca
sou agora apenas eu a sobreviver ao desespero.
Continuo a ignorar os deuses;
não os desafio porque só se combate o que existe,
não os invoco em vão nem os critico,
apenas vivo sem a sua bênção ou maldição.
Não acredito em paraísos aqui ou noutro lugar qualquer,
lugar reservado somente para os obedientes,
aqueles que seguem fielmente a voz dos seus donos.
Terminou o meu tempo de Ulisses
mas uma coisa sei:
não estarei presente no meu funeral.
pobre Ulisses que tinha a sua Penélope em Ítaca
e acreditava que a felicidade seria eterna.
Os deuses em que não acredito
castigaram-me por ser humano e livre,
quiseram que me tornasse submisso e crente,
mas mesmo infeliz e sem Penélope
recuso-me a abdicar da minha consciência.
Talvez seja esse o pior castigo,
o não poder abandonar-me a qualquer fé
e aceitar transformar a minha vida em destino.
Se fui Ulisses com Penélope e Ítaca
sou agora apenas eu a sobreviver ao desespero.
Continuo a ignorar os deuses;
não os desafio porque só se combate o que existe,
não os invoco em vão nem os critico,
apenas vivo sem a sua bênção ou maldição.
Não acredito em paraísos aqui ou noutro lugar qualquer,
lugar reservado somente para os obedientes,
aqueles que seguem fielmente a voz dos seus donos.
Terminou o meu tempo de Ulisses
mas uma coisa sei:
não estarei presente no meu funeral.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Minha senhora do nunca mais e da saudade,
Anúncio de todas as impossibilidades,
Rio que subitamente secou na origem,
Imagem que o tempo apaga no espelho
Antes de a memória se fixar no papel
Entretanto a vida continua,
Mil vozes ecoam no vazio,
Inesperados silêncios são sinal de desespero,
Lentas são as horas que se vão acumulando,
Irritantes e solenes, cruéis,
Antecâmaras de uma realidade que ficou suspensa
Anúncio de todas as impossibilidades,
Rio que subitamente secou na origem,
Imagem que o tempo apaga no espelho
Antes de a memória se fixar no papel
Entretanto a vida continua,
Mil vozes ecoam no vazio,
Inesperados silêncios são sinal de desespero,
Lentas são as horas que se vão acumulando,
Irritantes e solenes, cruéis,
Antecâmaras de uma realidade que ficou suspensa
Sem ti só me chegam os ecos das coisas
e sinto-me como que cego de sentimentos.
Tudo é náusea e sonolência pesada,
imagens daquilo que poderia ter sido
e a sensação absurda de que o tempo é irrecuperável.
Sem ti sou menos eu, a incompletude,
o vazio que preencho com palavras,
as únicas companheiras que me restam.
Eu sei que as palavras são poços que escondem a profundidade
ou armadilhas que usamos para defraudar a passagem das horas
mas nelas posso ter acesso aos teus reflexos.
Eu sei que as palavras podem ser perigosas sereias
que nos desviam das viagens e nos abandonam
depois de nos seus corpos perdermos a pureza do olhar
mas sem elas o silêncio seria mais insuportável.
Sem ti o mundo ficou mais pequeno
e quase que se reduziu às minhas sensações.
sei que lá fora a vida acontece independentemente das palavras,
independentemente de mim
ou de todos aqueles que involuntariamente sofrem
e trazem o peso das coisas sobre as suas costas.
Sei que o que sou e o que sinto
é talvez nada comparado com outras situações
mas nunca quis experimentar o papel de vítima
nem nunca imaginei a tua ausência.
Sem ti há súbitos desertos onde antes havia oásis
e sei agora que isso só era possível por tua causa,
eras tu a água e eu não sei onde matar a sede.
Que farei quando as palavras se tornarem inúteis
e nada mais justificar a tua ausência?
e sinto-me como que cego de sentimentos.
Tudo é náusea e sonolência pesada,
imagens daquilo que poderia ter sido
e a sensação absurda de que o tempo é irrecuperável.
Sem ti sou menos eu, a incompletude,
o vazio que preencho com palavras,
as únicas companheiras que me restam.
Eu sei que as palavras são poços que escondem a profundidade
ou armadilhas que usamos para defraudar a passagem das horas
mas nelas posso ter acesso aos teus reflexos.
Eu sei que as palavras podem ser perigosas sereias
que nos desviam das viagens e nos abandonam
depois de nos seus corpos perdermos a pureza do olhar
mas sem elas o silêncio seria mais insuportável.
Sem ti o mundo ficou mais pequeno
e quase que se reduziu às minhas sensações.
sei que lá fora a vida acontece independentemente das palavras,
independentemente de mim
ou de todos aqueles que involuntariamente sofrem
e trazem o peso das coisas sobre as suas costas.
Sei que o que sou e o que sinto
é talvez nada comparado com outras situações
mas nunca quis experimentar o papel de vítima
nem nunca imaginei a tua ausência.
Sem ti há súbitos desertos onde antes havia oásis
e sei agora que isso só era possível por tua causa,
eras tu a água e eu não sei onde matar a sede.
Que farei quando as palavras se tornarem inúteis
e nada mais justificar a tua ausência?
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