segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sou Ulisses que perdeu a ilha e a viagem,
no interior da noite sinto a angustia do Minotauro
e foi em mim que morreram as perigosas sereias,
mulheres que prometiam o que há para além da banalidade.

Sou D. Sebastião sem império ou nevoeiro,
caravela que não conseguiu ultrapassar o Adamastor
e ficou suspensa entre o naufrágio e o tempo.

Sou saltimbanco enclausurado numa casa vazia
a treinar as piruetas diante de um espelho quebrado.

Sou silêncio submerso por uma tempestade de palavras,
destroços dos dias, máscaras dos sentimentos,
icebergues a flutuar num lago de sombras.

Sou quem fui e quem poderei ser.

Sou sonho e pesadelo, raiva,
as sensações distorcidas e os medos,
os diferentes ângulos de um mesmo reflexo
repetido nas paredes de uma loja de conveniência.

Sou o caleidoscópio de imagens congeladas,
todas elas convocando uma presença impossível,
todas elas reafirmando a tua ausência.

Sou memória e esquecimento, náusea,
relógio de água subitamente perdido no deserto
impossibilitando-me de saber o tempo e a distância.

Sou o que penso e a inconsciência,
vários rostos e nenhum deles nítido como eu queria,
nenhum deles de mármore para ultrapassar a morte.

Sou talvez a ilusão de ainda querer ser
mas essa teimosia herdei-a dos meus antepassados,
carrego-a como uma identidade,
preciso de saber de mim como quem regressa à origem
e descobre que tudo ainda está por construir.
Desenho-te nas margens de um papel imaginário,
primeiro o teu sorriso,
depois as mãos que repousam no regaço,
essas mãos que tinhas sempre ocupadas.
Tenho dificuldade em definir a cor dos teus olhos,
verdes ou castanhos conforme a inspiração.
Deixo o teu corpo na penumbra da saudade
e não sei o que fazer com este desenho apenas imaginado.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Amar-te não foi suficiente.
Por decreto do destino (em que não acredito)
foste descobrir a verdade que há na morte
e eu fiquei entre o silêncio e a ausência
a ruminar imagens e a insistir nas palavras.
Amar-te não foi suficiente.
Acreditei que era impossível abandonares-me
mas dizem que a realidade é mais forte do que a crença
e eu não gosto da realidade sem ti,
sinto que tudo se esvaziou à minha volta
e no interior de mim já não te tenho.
Amar-te não foi suficiente
e isso dói
sem que encontre palavras para justificar a tua ausência.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Com as palavras podem-se perpetuar memórias
mas elas não conseguem fazer esquecer a ausência.
Por vezes as palavras são cruéis na sua inutilidade
e dissolvem-se na boca como areia árida,
por vezes as palavras doem como gritos
e procuramos auxílio na águas do silêncio.
Outras vezes as palavras mentem a nossa realidade,
transportam-nos como tapetes mágicos
e julgamos que são paraísos os nossos pequenos infernos pessoais.
Como eu odeio as palavras hipócritas e ocas
com que preenchemos os nossos quotidianos,
como eu amo desesperadamente as palavras
sabendo que não posso esperar delas a salvação
mas mesmo assim repetindo a magia de criá-las.
Estupidamente pensamos que existimos para sempre,
movendo-nos num tempo que é só nosso,
irresistível presença no interior do espelho,
livremente prisioneiros nas nossas fronteiras,
iguais ao que a nossa memória diz de nós,
amáveis esqueletos a aguardar a morte.

Amamos apenas os nossos reflexos,
guardamos todos os objectos inúteis,
uma a uma contabilizamos as horas
insistindo nas pequenas impossibilidades,
amamos mesmo quando amar é um pleonasmo,
resistimos porque nada mais há para fazer.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Tenho a obsessão de ser feliz
mas não o quero ser à força,
anestesiado de quem sou.
Não quero a felicidade dos rebanhos,
a beatitude de quem se renega
procurando na nulidade o seu sentido.
Não quero a felicidade ruidosa das feiras,
a frenética partilha das receitas,
a comunhão dispersiva, o atordoamento.
Ser feliz parece-me uma boa ideia
desde que não seja obrigação do horóscopo
ou penitência para substituir a vida.

domingo, 13 de setembro de 2009

Se ficar sem palavras restar-me-ão as memórias,
se no passar dos dias só tiver a companhia do silêncio
mesmo assim tu estarás presente
porque continuo a não saber viver sem ti.