A memória é o meu mapa de viagens
mas tenho o limite do teu corpo ausente
e não consigo capturar os momentos em imagens nítidas.
É impossível viver no passado
porque o passado é como a areia inconsistente
que escorre entre os nossos dedos ansiosos.
É impossível reviver o que não foi possível
e o que me dói não foi o que fiz
mas aquilo que não pude ou que não quis fazer.
A memória não é estratégia de sofrimento
nem uma qualquer porta para a redenção,
a minha memória é apenas a sensação de ausência
e a teimosia em manter-te enquanto eu próprio persistir.
quarta-feira, 10 de março de 2010
A inutilidade cola-se-me à pele como uma segunda pele,
uma película invisível que me paralisa os movimentos.
A inutilidade sou eu quando não acredito em mim,
quando o cansaço é superior à esperança,
quando me limito a suportar o peso do mundo.
A inutilidade é naufrágio da vontade,
preguiça de ser e de querer,
cinzas de um incêndio que consumiu o sonho.
Inúteis seremos forçosamente quando mortos
mas para isso não há remédio
e por isso custa mais ser inútil em vida.
uma película invisível que me paralisa os movimentos.
A inutilidade sou eu quando não acredito em mim,
quando o cansaço é superior à esperança,
quando me limito a suportar o peso do mundo.
A inutilidade é naufrágio da vontade,
preguiça de ser e de querer,
cinzas de um incêndio que consumiu o sonho.
Inúteis seremos forçosamente quando mortos
mas para isso não há remédio
e por isso custa mais ser inútil em vida.
domingo, 7 de março de 2010
Tenho um caderno de bolso onde me vou escrevendo.
Aliás, sempre me habituei a escrever aos pedaços,
fragmentaria mente,
como fragmentária é a minha vida e a de toda a gente.
Não sei se invento as palavras ou se elas me utilizam
(este é o velho enigma dos poetas)
mas é meu tudo quanto escrevo.
Quando os cadernos estão cheios vou-os substituindo
e guardo os antigos nas gavetas
mas quando a vida se esgotar
que poderei fazer senão assumir a posição dos cadáveres
embora contrariado, embora sob protesto?
Aliás, sempre me habituei a escrever aos pedaços,
fragmentaria mente,
como fragmentária é a minha vida e a de toda a gente.
Não sei se invento as palavras ou se elas me utilizam
(este é o velho enigma dos poetas)
mas é meu tudo quanto escrevo.
Quando os cadernos estão cheios vou-os substituindo
e guardo os antigos nas gavetas
mas quando a vida se esgotar
que poderei fazer senão assumir a posição dos cadáveres
embora contrariado, embora sob protesto?
Num dia cinzento desaguo no silêncio.
Tenho a alma pesada e o corpo congelado.
As horas estão suspensos no relógio
e sinto que os ponteiros abrem caminho nos meus nervos,
sinto que cada minuto é um a mais na inutilidade.
Não estou porém mais triste do que ontem
ou daquilo que estarei amanhã mesmo com chuva.
Estou em casa mas não estou à janela nem enrolado em mim,
estou como estaria se disso não tivesse consciência,
sem querer perceber os mistérios da vida
ou decifrar os incontornáveis ângulos do destino
até porque não acredito que haja isso a que chamam de destino.
Sei que lá fora é um dia cinzento
porque o meu escritório tem mais sombras
e porque o silêncio das palavras é mais profundo.
Mudei de posição e de disposição.
Pararei de escrever porque as palavras gritam,
pararei de pensar porque os sentimentos cansam
e eu quero ser sem ser
enquanto o dia for cinzento e real,
Tenho a alma pesada e o corpo congelado.
As horas estão suspensos no relógio
e sinto que os ponteiros abrem caminho nos meus nervos,
sinto que cada minuto é um a mais na inutilidade.
Não estou porém mais triste do que ontem
ou daquilo que estarei amanhã mesmo com chuva.
Estou em casa mas não estou à janela nem enrolado em mim,
estou como estaria se disso não tivesse consciência,
sem querer perceber os mistérios da vida
ou decifrar os incontornáveis ângulos do destino
até porque não acredito que haja isso a que chamam de destino.
Sei que lá fora é um dia cinzento
porque o meu escritório tem mais sombras
e porque o silêncio das palavras é mais profundo.
Mudei de posição e de disposição.
Pararei de escrever porque as palavras gritam,
pararei de pensar porque os sentimentos cansam
e eu quero ser sem ser
enquanto o dia for cinzento e real,
quarta-feira, 3 de março de 2010
Se é para dar conselhos não contem comigo,
não tenho certezas suficientes para fazer delas uma bandeira
e reunir à sua volta um grupo de discípulos.
Vivi o que me foi possível,
escolhi os meus caminhos, caí e levantei-me
mas nada disso pode servir de regra ou dogma
e muito menos para aqueles que não são como eu
ou que simplesmente não são eu.
Procurarei ser feliz
mas a felicidade que quero, embora partilhável,
não está num catecismo nem é um código restrito
que impõe fronteiras, proibições e condena as diferenças.
Se é para dar conselhos não contem comigo,
já há demasiados pastores com os seus rebanhos
e se tiver que ser prefiro ser a ovelha negra,
aquele que é filho de deus e do diabo,
Sísifo feliz por não trair a sua condição humana.
não tenho certezas suficientes para fazer delas uma bandeira
e reunir à sua volta um grupo de discípulos.
Vivi o que me foi possível,
escolhi os meus caminhos, caí e levantei-me
mas nada disso pode servir de regra ou dogma
e muito menos para aqueles que não são como eu
ou que simplesmente não são eu.
Procurarei ser feliz
mas a felicidade que quero, embora partilhável,
não está num catecismo nem é um código restrito
que impõe fronteiras, proibições e condena as diferenças.
Se é para dar conselhos não contem comigo,
já há demasiados pastores com os seus rebanhos
e se tiver que ser prefiro ser a ovelha negra,
aquele que é filho de deus e do diabo,
Sísifo feliz por não trair a sua condição humana.
Dizem que a vida é sonho porque nos querem dóceis,
incapazes de construir a nossa realidade,
dizem que a morte é inevitável
para que nos habituemos a morrer em vida,
têm leis para tudo e normas e preceitos,
falam em nome da verdade mesmo quando ela é obscura,
recordam-nos continuamente que somos apenas homens
e frágeis e falíveis,
estranhos animais que anseiam pelo rebanho
e usam coleiras no lugar das gravatas.
Acreditar neles é fácil e tem compensações,
acreditar desobriga-nos de pensar e de ter dúvidas.
O pioro é quando não podemos deixar de duvidar
e transformamos as perguntas em armas de inquietação,
o pior é quando em lugar da morte escolhemos a vida
ainda que em construção, ainda que imperfeita
e somos de novo Ulisses a desafiar os deuses.
incapazes de construir a nossa realidade,
dizem que a morte é inevitável
para que nos habituemos a morrer em vida,
têm leis para tudo e normas e preceitos,
falam em nome da verdade mesmo quando ela é obscura,
recordam-nos continuamente que somos apenas homens
e frágeis e falíveis,
estranhos animais que anseiam pelo rebanho
e usam coleiras no lugar das gravatas.
Acreditar neles é fácil e tem compensações,
acreditar desobriga-nos de pensar e de ter dúvidas.
O pioro é quando não podemos deixar de duvidar
e transformamos as perguntas em armas de inquietação,
o pior é quando em lugar da morte escolhemos a vida
ainda que em construção, ainda que imperfeita
e somos de novo Ulisses a desafiar os deuses.
terça-feira, 2 de março de 2010
Na Inquisição dos dias torturados sou um penitente,
judeu sem fé, homem sem deuses.
Feridas de sangue abrem-se-me na carne
e ouço os risos escarninhos dos espectadores,
daqueles que se limitam a assistir à vida dos outros.
Ainda não aprendi o dom da insensibilidade
e o fogo arde como um sofrimento inapagável,
o fogo é uma coroa de espinhos que me violenta a consciência.
Afundaram a minha nau das descobertas,
queimaram os meus livros e as minhas memórias,
amortalharam-me numa visão do inferno
e usaram-me para publicitar as suas ideias de ódio.
Podem até ser verdadeiras as suas verdades
mas ninguém deveria ter que morrer por elas.
Ouviram-me gritar mas permaneceram imóveis,
fechados nas prisões das suas casas cómodas.
Na Inquisição dos dias insepultos sou um penitente
e sigo os meus passos nesta infinita procissão do desespero.
judeu sem fé, homem sem deuses.
Feridas de sangue abrem-se-me na carne
e ouço os risos escarninhos dos espectadores,
daqueles que se limitam a assistir à vida dos outros.
Ainda não aprendi o dom da insensibilidade
e o fogo arde como um sofrimento inapagável,
o fogo é uma coroa de espinhos que me violenta a consciência.
Afundaram a minha nau das descobertas,
queimaram os meus livros e as minhas memórias,
amortalharam-me numa visão do inferno
e usaram-me para publicitar as suas ideias de ódio.
Podem até ser verdadeiras as suas verdades
mas ninguém deveria ter que morrer por elas.
Ouviram-me gritar mas permaneceram imóveis,
fechados nas prisões das suas casas cómodas.
Na Inquisição dos dias insepultos sou um penitente
e sigo os meus passos nesta infinita procissão do desespero.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
