Vive-se de muitas maneiras
E algumas são tão indescritíveis que se assemelham à morte.
Vive-se a contar com os paraísos do futuro
E esses paraísos servem-nos para desculpar o que perdemos.
Vive-se nas palavras de um livro
E essas palavras são barreiras,
Juízes do que dizemos e fazemos,
Carrascos dos nossos próprios sentimentos.
Vive-se nas memórias do passado,
Transformando cada dia numa repetição,
A história emoldurada em que ninguém repara.
Vive-se como se se estivesse dentro de uma ampulheta,
Calculando os minutos e escrevendo os relatórios,
Minuciosas minutas de desperdício e náusea.
Vive-se com medo e amortalhado no medo,
Receoso dos outros e do que eles possam pensar de nós,
Receoso das palavras que encerram armadilhas.
Vive-se na inconsciência forçada do momento,
Perdido num nevoeiro de emoções exacerbadas,
Exausto no centro de um delírio permanente.
Vive-se de muitas maneiras
E esgota-se a vida na urgência da perfeição,
No cumprimento das regras e preceitos.
Julga-se que se vive nas sombras dos fantasmas,
Fantasmas também nós num mundo de enganos
E as palavras são as nossas estratégias de sobrevivência,
A última esperança de quem não aceita a morte.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Acusam-me de Narciso por estar prisioneiro de mim
e me ter constantemente na consciência,
acusam-me de obsessivo e inseguro,
afirmam que desisti da viagem
quando só estou suspenso entre o momento e o futuro,
seja ele qual for, sem traços do destino.
Subsisto dos fragmentos da memória,
resisto à maldição das estátuas de sal,
com as palavras combato a aridez do papel
mergulhando nos mistérios da água primordial.
Narciso não sou nem outra qualquer figura mitológica,
não pretendo imitar a vida de ninguém
e se continuo na prisão dos meus limites
não é porque tenha desistido já da liberdade.
As palavras são afinal insuficientes
para desenhar os contornos do silêncio
e explicar as circunstâncias de uma vida.
e me ter constantemente na consciência,
acusam-me de obsessivo e inseguro,
afirmam que desisti da viagem
quando só estou suspenso entre o momento e o futuro,
seja ele qual for, sem traços do destino.
Subsisto dos fragmentos da memória,
resisto à maldição das estátuas de sal,
com as palavras combato a aridez do papel
mergulhando nos mistérios da água primordial.
Narciso não sou nem outra qualquer figura mitológica,
não pretendo imitar a vida de ninguém
e se continuo na prisão dos meus limites
não é porque tenha desistido já da liberdade.
As palavras são afinal insuficientes
para desenhar os contornos do silêncio
e explicar as circunstâncias de uma vida.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Os heróis antigos transformaram-se em estátuas
e persistem nas histórias que já ninguém recorda
porque agora os heróis são mais instantâneos
e a fama dura apenas o tempo das imagens.
As naus apodreceram e os portos estão abandonados
quem ainda sonha com os impérios
são aqueles que estão viciados nos nevoeiros
e trocam tudo por um passado embalsamado
mesmo que povoado de cadáveres.
Os oceanos estão todos catalogados,
substituíram-nos por imagens em 3 D
que mumificam as sensações que possamos ter delas
e nos transmutam a nós mesmos em meros espectadores,
estátuas imóveis só com os olhos em movimento.
Se solicitarem um poeta épico para cantar as glórias passadas
escolham um cego como o velho Homero
ou então um louco como o habitual D. Sebastião,
mistura de D. Quixote com Sancho Pança,
ridículo cavaleiro que povoa os nevoeiros
ainda e sempre à procura da Dulcineia
ignorando que entretanto as princesas se tornaram mulheres.
Se precisarem de epopeias e narrativas heróicas
coloquem todas as estátuas numa praça,
recuperem os templos antigos e renovem os altares,
convertam a morte em elogio póstumo
e atrasem os relógios ou pelo menos encravem os mecanismos
com a areia que trazem no lugar do corpo.
Os mundos de hoje são menos aquáticos,
as distâncias apequenam-se num ecrã que já foi mágico,
com heróis e de loucos distorce-se a memória
e só nos resta recuperar o silêncio que ainda existe nas palavras.
e persistem nas histórias que já ninguém recorda
porque agora os heróis são mais instantâneos
e a fama dura apenas o tempo das imagens.
As naus apodreceram e os portos estão abandonados
quem ainda sonha com os impérios
são aqueles que estão viciados nos nevoeiros
e trocam tudo por um passado embalsamado
mesmo que povoado de cadáveres.
Os oceanos estão todos catalogados,
substituíram-nos por imagens em 3 D
que mumificam as sensações que possamos ter delas
e nos transmutam a nós mesmos em meros espectadores,
estátuas imóveis só com os olhos em movimento.
Se solicitarem um poeta épico para cantar as glórias passadas
escolham um cego como o velho Homero
ou então um louco como o habitual D. Sebastião,
mistura de D. Quixote com Sancho Pança,
ridículo cavaleiro que povoa os nevoeiros
ainda e sempre à procura da Dulcineia
ignorando que entretanto as princesas se tornaram mulheres.
Se precisarem de epopeias e narrativas heróicas
coloquem todas as estátuas numa praça,
recuperem os templos antigos e renovem os altares,
convertam a morte em elogio póstumo
e atrasem os relógios ou pelo menos encravem os mecanismos
com a areia que trazem no lugar do corpo.
Os mundos de hoje são menos aquáticos,
as distâncias apequenam-se num ecrã que já foi mágico,
com heróis e de loucos distorce-se a memória
e só nos resta recuperar o silêncio que ainda existe nas palavras.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Acaba em silêncio o que começou na água,
onda, concha, peixe das profundidades,
estrela do mar, coral e gruta submarina.
As palavras naufragadas pesam-me nos bolsos,
transporto-as como uma relíquia desconhecida,
viajo entre a noite e o dia
com o corpo das sereias no exterior do espelho.
Entretanto converti o tempo num velho astrolábio
que me indica a localização dos astros
mas me faz chegar irremediavelmente atrasado.
As horas que há são aquelas que desperdicei
e nunca aprendi matemática suficiente para contabilizar os minutos
e impedir que tudo seja exterior a mim.
A água apaga as margens da memória,
dissolve-me o corpo num redemoínho de algas
e mesmo quando recupero do pesadelo original e único
há pedaços de algas a decomporem-se nos meus olhos
impedindo-me de ver para além dos horizontes de água.
O silêncio não substituiu a água,
transformou-a em mosteiro ao redor de mim,
emparedou as janelas e trocou o lugar das portas
obrigando-me a não saber se estou dentro ou fora
nesta casa fronteira entre o oceano e eu próprio.
Água e silêncio é tudo o que resta do meu corpo
e se acreditam que mesmo assim eu existo
é porque se deixam enganar pelos espelhos,
perigosos instrumentos de aquarizar os dias.
onda, concha, peixe das profundidades,
estrela do mar, coral e gruta submarina.
As palavras naufragadas pesam-me nos bolsos,
transporto-as como uma relíquia desconhecida,
viajo entre a noite e o dia
com o corpo das sereias no exterior do espelho.
Entretanto converti o tempo num velho astrolábio
que me indica a localização dos astros
mas me faz chegar irremediavelmente atrasado.
As horas que há são aquelas que desperdicei
e nunca aprendi matemática suficiente para contabilizar os minutos
e impedir que tudo seja exterior a mim.
A água apaga as margens da memória,
dissolve-me o corpo num redemoínho de algas
e mesmo quando recupero do pesadelo original e único
há pedaços de algas a decomporem-se nos meus olhos
impedindo-me de ver para além dos horizontes de água.
O silêncio não substituiu a água,
transformou-a em mosteiro ao redor de mim,
emparedou as janelas e trocou o lugar das portas
obrigando-me a não saber se estou dentro ou fora
nesta casa fronteira entre o oceano e eu próprio.
Água e silêncio é tudo o que resta do meu corpo
e se acreditam que mesmo assim eu existo
é porque se deixam enganar pelos espelhos,
perigosos instrumentos de aquarizar os dias.
Os piores labirintos são os das palavras
porque neles está e escondido o nosso próprio monstro,
aquele que nos conhece desde o nascimento,
aquele que nos pode aniquilar os sonhos
mantendo-nos vivos num corpo de cadáver.
Os piores labirintos são os dos silêncios,
labirintos de ausências,
vestígios das esfinges a guardar os desertos.
A memória recusa-se a voltar a Creta e aos seus fantasmas
porque os heróis antigos perderam-se no esquecimento
quando Ariadne deixou de tecer os seus novelos.
A memória é herdeira de outras viagens de Ulisses
mas os monstros e as sereias foram vencidos pelo tempo
e os únicos vestígios são as palavras que escrevo
juntamente com os silêncios que vestem o meu corpo,
tudo labirintos que a minha memória esquece
na sua tarefa de desistir da imortalidade.
porque neles está e escondido o nosso próprio monstro,
aquele que nos conhece desde o nascimento,
aquele que nos pode aniquilar os sonhos
mantendo-nos vivos num corpo de cadáver.
Os piores labirintos são os dos silêncios,
labirintos de ausências,
vestígios das esfinges a guardar os desertos.
A memória recusa-se a voltar a Creta e aos seus fantasmas
porque os heróis antigos perderam-se no esquecimento
quando Ariadne deixou de tecer os seus novelos.
A memória é herdeira de outras viagens de Ulisses
mas os monstros e as sereias foram vencidos pelo tempo
e os únicos vestígios são as palavras que escrevo
juntamente com os silêncios que vestem o meu corpo,
tudo labirintos que a minha memória esquece
na sua tarefa de desistir da imortalidade.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Nem todos os silêncios têm a mesma intensidade.
Sei-o porque eu e eles somos velhos companheiros,
tão velhos quanto a minha idade mo permite
ou a indulgência de quem viu nascer o mundo.
Os silêncios são os vários rostos de uma mesma realidade.
Nos espelhos de mim
cheguei a confundir os seus reflexos com a minha imagem,
nos espelhos de mim vesti o meu corpo de silêncio
e usei os sentimentos como facas afiadas
separando a superfície do que não há por baixo,
expondo as múltiplas cascas do meu ser.
Diz-me o silêncio que mentem os que o querem fúnebre
mas eu sei que até as mentiras têm alguma verdade,
sei-o porque há silêncios becos-sem-saída,
silêncios com a consistência dos nossos maiores pesadelos.
Diz-me o silêncio que está cansado de usarem o seu nome
mas o pior cansaço está no perder dos horizontes
e ficar subitamente sem barco, sem mar e sem viagem.
Os silêncios são os vários rostos de mim mesmo,
os silêncios são feitos com todas as palavras omitidas
e por isso posso trazê-los a este poema,
sentar-me com eles como se estivesse numa mesa de café
e esquecer-me de mim para fingir que vivo.
Sei-o porque eu e eles somos velhos companheiros,
tão velhos quanto a minha idade mo permite
ou a indulgência de quem viu nascer o mundo.
Os silêncios são os vários rostos de uma mesma realidade.
Nos espelhos de mim
cheguei a confundir os seus reflexos com a minha imagem,
nos espelhos de mim vesti o meu corpo de silêncio
e usei os sentimentos como facas afiadas
separando a superfície do que não há por baixo,
expondo as múltiplas cascas do meu ser.
Diz-me o silêncio que mentem os que o querem fúnebre
mas eu sei que até as mentiras têm alguma verdade,
sei-o porque há silêncios becos-sem-saída,
silêncios com a consistência dos nossos maiores pesadelos.
Diz-me o silêncio que está cansado de usarem o seu nome
mas o pior cansaço está no perder dos horizontes
e ficar subitamente sem barco, sem mar e sem viagem.
Os silêncios são os vários rostos de mim mesmo,
os silêncios são feitos com todas as palavras omitidas
e por isso posso trazê-los a este poema,
sentar-me com eles como se estivesse numa mesa de café
e esquecer-me de mim para fingir que vivo.
Fascinam os cães que desenterram os cadáveres
e mesmo depois de terem assassinado todas as crianças
numa repetição macabra do massacre de Herodes
e terem destruído a esperança dos que sobreviveram
continuo o espectador sereno e silencioso
sentado no café sem mesas nem cadeiras,
continuo a escrever nos cadernos vermelhos
mesmo que já não haja ninguém para os ler.
Não sou insensível aos mortos nem à morte,
não julgo que, por ser poeta, sou imortal
e escaparei às balas e ao ódio dos homens,
não transformei a minha vida num volume de poesias
mas confesso que me fascinam os cães famintos
e fico a olhá-los como se tudo se resumisse a eles.
e mesmo depois de terem assassinado todas as crianças
numa repetição macabra do massacre de Herodes
e terem destruído a esperança dos que sobreviveram
continuo o espectador sereno e silencioso
sentado no café sem mesas nem cadeiras,
continuo a escrever nos cadernos vermelhos
mesmo que já não haja ninguém para os ler.
Não sou insensível aos mortos nem à morte,
não julgo que, por ser poeta, sou imortal
e escaparei às balas e ao ódio dos homens,
não transformei a minha vida num volume de poesias
mas confesso que me fascinam os cães famintos
e fico a olhá-los como se tudo se resumisse a eles.
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