Fazes-me falta,
a cama é grande,
a casa está vazia de ti,
há palavras sufocadas na garganta,
palavras vestidas de negro
que nunca gostaria de habitar.
Fazes-me falta,
os dias repetem-se nos calendários
mas evito fazer deles efemérides,
os dias são apenas dias de ausência,
dias sem ti,
impossíveis memórias
porque o tempo não regressa.
Fazes-me falta,
os anos vão passar inevitavelmente
insensivelmente,
mas sem ti,
à tua revelia.
Fazes-me falta,
de todos os silêncios o teu é o mais definitivo,
o mais magoado
e rasga as paredes da minha tranquilidade aparente.
Fazes-me falta,
de todas as vozes só não ouço a tua
e os sons estão congelados no tempo
como imagens num álbum interdito.
Fazes-me falta
mas não há falsas promessas de reencontro
e a solidão é tudo o que me deixaste.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Traição
Traí o silêncio com todos os sons do desespero,
traí o princípio da insensibilidade,
traí-te quando te quis perfeita,
emoldurada num tempo dourado e falso.
Não sei se voltarei a recuperar a serenidade,
abandonei todos os projectos de invulnerabilidade
e não te quero imagem em relicário permanente.
Mesmo assim não há pior traição do que a morte.
traí o princípio da insensibilidade,
traí-te quando te quis perfeita,
emoldurada num tempo dourado e falso.
Não sei se voltarei a recuperar a serenidade,
abandonei todos os projectos de invulnerabilidade
e não te quero imagem em relicário permanente.
Mesmo assim não há pior traição do que a morte.
Esqueço-me dos sinais, das palavras, das paisagens comuns,
esqueço-me dos dias irrelevantes e dos gestos insignificantes
que abriam novas perspectivas no nosso mundo a dois,
esqueço-me do som dos teus sorrisos,
da cor do teu cabelo nas tuas mãos
e das minhas mãos no teu corpo,
esqueço,
esqueço-me,
esqueço-me de mim.
esqueço-me dos dias irrelevantes e dos gestos insignificantes
que abriam novas perspectivas no nosso mundo a dois,
esqueço-me do som dos teus sorrisos,
da cor do teu cabelo nas tuas mãos
e das minhas mãos no teu corpo,
esqueço,
esqueço-me,
esqueço-me de mim.
sábado, 16 de outubro de 2010
Eu
Esgotei os dicionários para saber das palavras impronunciáveis,
esgotei-me na missão de explorar os silêncios,
perdi-me nos labirintos dos espelhos,
julguei que me encontrava no que diziam de mim
mas eram apenas ecos ou reflexos das minhas cavernas,
sei-me intermitentemente e em excesso,
persisto teimosamente na tarefa de não desistir
e recuso-me a contabilizar as perdas e os ganhos
porque a vida é mais do que uma questão de contabilidade.
Fui quem sou em muitas ocasiões diferentes,
fui muitos e no entanto permaneci o mesmo,
fui sem esgotar o ser, sempre em projecto,
sempre insatisfeito em busca de cumprir o sonho
ou os múltiplos sonhos que vou arquitectando.
Eu.
Podem as palavras expressar convenientemente a existência humana?
esgotei-me na missão de explorar os silêncios,
perdi-me nos labirintos dos espelhos,
julguei que me encontrava no que diziam de mim
mas eram apenas ecos ou reflexos das minhas cavernas,
sei-me intermitentemente e em excesso,
persisto teimosamente na tarefa de não desistir
e recuso-me a contabilizar as perdas e os ganhos
porque a vida é mais do que uma questão de contabilidade.
Fui quem sou em muitas ocasiões diferentes,
fui muitos e no entanto permaneci o mesmo,
fui sem esgotar o ser, sempre em projecto,
sempre insatisfeito em busca de cumprir o sonho
ou os múltiplos sonhos que vou arquitectando.
Eu.
Podem as palavras expressar convenientemente a existência humana?
domingo, 10 de outubro de 2010
Precisamos todos de uma razão para viver
Porque a vida é um enigma que a si mesmo não se explica,
Uma equação da matemática dos sentimentos.
E no entanto há quem forneça regras,
Imponha caminhos e determine condições
E no entanto há pastores de rebanhos e rebanhos dóceis.
Precisamos todos de alcançar a felicidade
Mesmo que seja com diferentes mapas.
E no entanto há quem a venda engarrafada,
Há quem provoque holocaustos como única maneira de ser feliz
E no entanto há sempre aqueles
Para quem a sua felicidade implica a destruição dos outros.
Precisamos todos de ser mais humanos
Menos repletos de certezas, mais abertos.
E no entanto há quem detenha todas as verdades,
Quem seja o centro do mundo e arredores,
Um robô programado que aceita um único programa.
E ainda há quem proclame a superioridade do homem,
Esse bicho aflito que nem com a história aprende
Que a única lição de vida é viver plenamente
Sem nos anularmos nem ignorar os outros!
Porque a vida é um enigma que a si mesmo não se explica,
Uma equação da matemática dos sentimentos.
E no entanto há quem forneça regras,
Imponha caminhos e determine condições
E no entanto há pastores de rebanhos e rebanhos dóceis.
Precisamos todos de alcançar a felicidade
Mesmo que seja com diferentes mapas.
E no entanto há quem a venda engarrafada,
Há quem provoque holocaustos como única maneira de ser feliz
E no entanto há sempre aqueles
Para quem a sua felicidade implica a destruição dos outros.
Precisamos todos de ser mais humanos
Menos repletos de certezas, mais abertos.
E no entanto há quem detenha todas as verdades,
Quem seja o centro do mundo e arredores,
Um robô programado que aceita um único programa.
E ainda há quem proclame a superioridade do homem,
Esse bicho aflito que nem com a história aprende
Que a única lição de vida é viver plenamente
Sem nos anularmos nem ignorar os outros!
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Sobreviver
Sobram os dias vazios,
os dias recheados de inutilidades importantes,
os dias manchas a alastrar na parede
construindo um enorme mural de desespero.
Sobreviver não é tarefa de herói
e o corpo grita a ausência de outro corpo,
o corpo é pedra e faca, espuma depois da onda,
espinho que complementa a carne, ignóbil dor
como o são todas dores do sacrifício.
Sobram as palavras e os silêncios,
o lento mastigar das impossibilidades,
as imagens sombreadas de crepusculos.
Sobreviver não é assunto de poema épico
e tudo em mim recusa a crueldade do tempo,
esse relógio que tritura as engrenagens,
esse espelho da morte e das suas armadilhas.
os dias recheados de inutilidades importantes,
os dias manchas a alastrar na parede
construindo um enorme mural de desespero.
Sobreviver não é tarefa de herói
e o corpo grita a ausência de outro corpo,
o corpo é pedra e faca, espuma depois da onda,
espinho que complementa a carne, ignóbil dor
como o são todas dores do sacrifício.
Sobram as palavras e os silêncios,
o lento mastigar das impossibilidades,
as imagens sombreadas de crepusculos.
Sobreviver não é assunto de poema épico
e tudo em mim recusa a crueldade do tempo,
esse relógio que tritura as engrenagens,
esse espelho da morte e das suas armadilhas.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Jogral num espectáculo que nunca termina,
Órfão de mim mesmo sem saber a origem,
Sentinela às portas de um deserto transparente,
Emparedado do lado de fora de um castelo de ilusão,
Tornei-me imagem num espelho convexo,
Odiei tudo quanto não era eu,
Recusei os horizontes amplos no exterior de mim,
Resmunguei desculpas para me esquecer no tempo,
Enfrentei os monstros que a minha imaginação criava,
Sozinho sem no entanto poder aniquilar o mundo.
Órfão de mim mesmo sem saber a origem,
Sentinela às portas de um deserto transparente,
Emparedado do lado de fora de um castelo de ilusão,
Tornei-me imagem num espelho convexo,
Odiei tudo quanto não era eu,
Recusei os horizontes amplos no exterior de mim,
Resmunguei desculpas para me esquecer no tempo,
Enfrentei os monstros que a minha imaginação criava,
Sozinho sem no entanto poder aniquilar o mundo.
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