Não me peçam para ser feliz à força,
simplesmente não me queiram à vossa semelhança,
fiel devoto das futilidades convertidas em verdades.
Cada homem escolhe os seus próprios caminhos
e só depois de os percorrer
é que poderá saber se eles são à sua medida.
Como dizia o poeta António Machado,
é com os nossos passos que construimos os caminhos
e somos os roteiros percorridos
e aquilo que ainda falta percorrer.
Nos livros, as vidas parecem mais nítidas
mas não há nenhuma vida por empréstimo
e ninguém alcançara os horizontes em nosso nome.
Talvez eu esteja errado e vós estais certos
mas só mudarei de rumo quando disso estiver convencido
e não porque me prometeis tentadores paraísos.
Agradeço o vosso interesse mas prefiro ser eu a escolher
porque a vida é minha
e estou pronto a pagar as consequências das minhas escolhas.
Sei que gostariam de me ver feliz,
de me ver mais parecido com os vossos espelhos
mas existe em mim uma inquietação
que me obriga a tentar simplesmente ser quem sou
sem me procurar nos catálogos das vidas programadas.
terça-feira, 17 de maio de 2011
O espaço e o tempo são ilusões perigosas,
dizem os que preferem a tranquilidade das cavernas
e se habituam às imagens que espelham o seu vazio.
Livrai-vos de desejar o impossível,
repetem em ladainha os cultores da mediocridade,
todos os que se contentam com as sombras
e vivem nos escombros das casas que foram seguras.
Eu, que não acredito nos seus paraísos com grades nas janelas,
sou a ameaça, a inquietação e a raiva,
viajo destruindo as barreiras e os limites,
desafiarei a morte ao não aceitar a passividade dos desistentes.
Que me importa se ainda existem inquisições nos olhares escandalizados
de quem me preferia subjugado, fiel a uma qualquer verdade?
Eu, que não sou santo nem demónio
e moro onde mora a minha liberdade,
sou a subversão, a criança que teima em perguntar
mesmo quando insistem em que todas as respostas foram já dadas.
Que me importa o futuro na forma de paraíso
se por causa disso houver injustiça e morte?
Eu, que não faço parte de nenhum rebanho
e não sou candidato a profeta ou a líder de causas,
imagino que um dia acabará a escravidão
e teremos o mundo que os deuses nos proibiram.
Que me importa que digam que sonhar é próprio da infância
só para me obrigarem a aceitar a condição de cadáver adiado?
Não quero trocar as cores do desejo
pela segurança de uma coleira bem apertada,
não quero que digam que fui bem comportado
à imagem e semelhança dos modelos institucionalizados.
Que me importa que sejam muitas as regras e as proibições
e os memoriais estejam atafulhados de castigos?
O espaço e o tempo são o oceano onde navego
e desejo tornar real o impossível
sem no entanto me ambicionar conquistador de um qualquer paraíso.
dizem os que preferem a tranquilidade das cavernas
e se habituam às imagens que espelham o seu vazio.
Livrai-vos de desejar o impossível,
repetem em ladainha os cultores da mediocridade,
todos os que se contentam com as sombras
e vivem nos escombros das casas que foram seguras.
Eu, que não acredito nos seus paraísos com grades nas janelas,
sou a ameaça, a inquietação e a raiva,
viajo destruindo as barreiras e os limites,
desafiarei a morte ao não aceitar a passividade dos desistentes.
Que me importa se ainda existem inquisições nos olhares escandalizados
de quem me preferia subjugado, fiel a uma qualquer verdade?
Eu, que não sou santo nem demónio
e moro onde mora a minha liberdade,
sou a subversão, a criança que teima em perguntar
mesmo quando insistem em que todas as respostas foram já dadas.
Que me importa o futuro na forma de paraíso
se por causa disso houver injustiça e morte?
Eu, que não faço parte de nenhum rebanho
e não sou candidato a profeta ou a líder de causas,
imagino que um dia acabará a escravidão
e teremos o mundo que os deuses nos proibiram.
Que me importa que digam que sonhar é próprio da infância
só para me obrigarem a aceitar a condição de cadáver adiado?
Não quero trocar as cores do desejo
pela segurança de uma coleira bem apertada,
não quero que digam que fui bem comportado
à imagem e semelhança dos modelos institucionalizados.
Que me importa que sejam muitas as regras e as proibições
e os memoriais estejam atafulhados de castigos?
O espaço e o tempo são o oceano onde navego
e desejo tornar real o impossível
sem no entanto me ambicionar conquistador de um qualquer paraíso.
sábado, 14 de maio de 2011
O que é que se pode dizer de uma filha que faz vinte anos?
Só me lembro da música de Serge Reggiani
mas as coisas não são exactamente como as da canção,
a realidade tem sempre mais perspectivas do que as da poesia.
O que é que se pode dizer a uma filha que faz vinte anos?
Sinto que todas as palavras são inconvenientes
e os silêncios não são necessariamente sinais de sofrimento.
Sinto que muitas vezes as palavras são inoportunas
e não reproduzem a profundidade dos sentimentos.
O tempo persiste na memória
e continuaremos a combater a morte.
Só me lembro da música de Serge Reggiani
mas as coisas não são exactamente como as da canção,
a realidade tem sempre mais perspectivas do que as da poesia.
O que é que se pode dizer a uma filha que faz vinte anos?
Sinto que todas as palavras são inconvenientes
e os silêncios não são necessariamente sinais de sofrimento.
Sinto que muitas vezes as palavras são inoportunas
e não reproduzem a profundidade dos sentimentos.
O tempo persiste na memória
e continuaremos a combater a morte.
Carrego o peso dos meus sonhos e das minhas desilusões,
igual a todos os outros homens:
pequeno na mesquinhez dos espelhos concêntricos
e infinito nos horizontes que transbordam muros.
Transporto a inquietação como uma chama acesa
mas recuso as cinzas dos quotidianos mortos.
Tenho o vício de mastigar as palavras,
remoê-las, mantê-las na caverna da boca
e depois deixá-las navegar no branco das páginas.
Não sei se o tempo será indulgente comigo
e continuo a não desejar o favor dos deuses
ou sequer a planificar um paraíso privado.
Basta-me a consciência e a memória
e estou tranquilo na minha inquietação permanente
de quem se busca para além dos livros e das receitas consagradas.
igual a todos os outros homens:
pequeno na mesquinhez dos espelhos concêntricos
e infinito nos horizontes que transbordam muros.
Transporto a inquietação como uma chama acesa
mas recuso as cinzas dos quotidianos mortos.
Tenho o vício de mastigar as palavras,
remoê-las, mantê-las na caverna da boca
e depois deixá-las navegar no branco das páginas.
Não sei se o tempo será indulgente comigo
e continuo a não desejar o favor dos deuses
ou sequer a planificar um paraíso privado.
Basta-me a consciência e a memória
e estou tranquilo na minha inquietação permanente
de quem se busca para além dos livros e das receitas consagradas.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Não quero esquecer-me de quem sou;
não é para isso que escrevo
e sou carcereiro e prisioneiro das palavras,
Sei que a memória não é um espelho transparente
ou uma linha recta e nítida num horizonte branco.
Sei muitas coisas e a maior parte delas são inúteis
porque ninguém nos ensina o que é verdadeiramente importante.
Não quero ser poeta das minhas desgraças;
não é por isso que escrevo
aqui neste papel que é a minha residência temporária.
Sei que há tragédias maiores do que uma vida
porque as vejo quotidianamente nos noticiários.
Sei que os espelhos de Narciso nos atraem
transformando-nos em esfinges das nossas próprias sombras.
Escreverei enquanto as palavras tiverem densidade
e não tiver necessidade de as usar como biombos
para me esconder da minha verdade,
não é para isso que escrevo
e sou carcereiro e prisioneiro das palavras,
Sei que a memória não é um espelho transparente
ou uma linha recta e nítida num horizonte branco.
Sei muitas coisas e a maior parte delas são inúteis
porque ninguém nos ensina o que é verdadeiramente importante.
Não quero ser poeta das minhas desgraças;
não é por isso que escrevo
aqui neste papel que é a minha residência temporária.
Sei que há tragédias maiores do que uma vida
porque as vejo quotidianamente nos noticiários.
Sei que os espelhos de Narciso nos atraem
transformando-nos em esfinges das nossas próprias sombras.
Escreverei enquanto as palavras tiverem densidade
e não tiver necessidade de as usar como biombos
para me esconder da minha verdade,
As palavras, de tanto usadas, acabam por ficar empedernidas,
lúgubres ameaças de um silêncio primordial.
Creio que me cansei de descer às cavernas de Polifemo,
creio que o cansaço transformou as palavras em nevoeiro
e entretanto perdi as bússolas e os mapas,
perdi o barco e a própria sensação da viagem.
As palavras adquiriram a cor da terra
e deixam-me na boca um sabor a cinzas e a ausência.
Porém, ainda não estou viúvo das palavras,
já me basta a realidade e as horas mortas,
Continuarei a tentar transpô-las para o papel
num ritual que de sagrado só tem a heresia.
lúgubres ameaças de um silêncio primordial.
Creio que me cansei de descer às cavernas de Polifemo,
creio que o cansaço transformou as palavras em nevoeiro
e entretanto perdi as bússolas e os mapas,
perdi o barco e a própria sensação da viagem.
As palavras adquiriram a cor da terra
e deixam-me na boca um sabor a cinzas e a ausência.
Porém, ainda não estou viúvo das palavras,
já me basta a realidade e as horas mortas,
Continuarei a tentar transpô-las para o papel
num ritual que de sagrado só tem a heresia.
Mesmo quando os dias são normais e as horas mornas,
mesmo quando nos calendários as datas se repetem
eu sobrevivo nas margens do abismo
e nunca aceitarei as realidades mortas.
Com as palavras viajo no impossível
e os meus mundos são construídos de imagens e memórias.
Mesmo quando nada parece atormentar-nos
o tempo transforma-se em labirintos intermináveis
e neles há algo da nossa identidade que anoitece
como se nos obrigassem a permanecer no quarto escuro.
Com as palavras multiplico as imagens,
estilhaço os espelhos, sou incêndio e cinzas,
deito abaixo as paredes do quarto escuro
e descubro que tenho qualquer coisa de esfinge
porque ainda ando à procura da minha origem.
mesmo quando nos calendários as datas se repetem
eu sobrevivo nas margens do abismo
e nunca aceitarei as realidades mortas.
Com as palavras viajo no impossível
e os meus mundos são construídos de imagens e memórias.
Mesmo quando nada parece atormentar-nos
o tempo transforma-se em labirintos intermináveis
e neles há algo da nossa identidade que anoitece
como se nos obrigassem a permanecer no quarto escuro.
Com as palavras multiplico as imagens,
estilhaço os espelhos, sou incêndio e cinzas,
deito abaixo as paredes do quarto escuro
e descubro que tenho qualquer coisa de esfinge
porque ainda ando à procura da minha origem.
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