Gosto do silêncio mas creio que não poderia viver sem as palavras,
sem o corpo delas vestido de medos e desejos,
sem a expetativa de as ver chegar de improviso
abandonando-me logo que persisto em fazer delas minhas prisioneiras.
Gosto das palavras quando elas são a nossa pele
e não quando servem de biombos,
gosto das palavras que não se transformam em gritos
nem são farpas a prolongar a violência.
Gosto das palavras que não nos escondem por detrás dos espelhos,
gosto quando adormeço na sua companhia
porque sei que nunca estarei sozinho.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Há distâncias impossíveis que nos separam
e ainda luto para não perder a tua imagem.
Tenho medo de que a memória se transforme em areia
e escorra no interior das palavras ocas,
esqueletos a recordar o que foi a carne dos dias.
Tenho medo de que a vida se transforme em banco de espera
sem nunca saber se o comboio está atrasado
ou se fui eu que me atrasei no momento.
Há distâncias impossíveis que não cabem nas palavras
mas resistirei ainda e sempre ao esquecimento.
e ainda luto para não perder a tua imagem.
Tenho medo de que a memória se transforme em areia
e escorra no interior das palavras ocas,
esqueletos a recordar o que foi a carne dos dias.
Tenho medo de que a vida se transforme em banco de espera
sem nunca saber se o comboio está atrasado
ou se fui eu que me atrasei no momento.
Há distâncias impossíveis que não cabem nas palavras
mas resistirei ainda e sempre ao esquecimento.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Cartas de amor
Também eu escrevi cartas de amor
mas só me sinto ridículo por não as poder continuar a escrever,
sinto-me enganado por um tempo que não teve misericórdia
e passou deixando as cartas de amor que ninguém lê.
Tenho-as na gaveta no fundo de um armário
e é como se elas estivessem no fundo da memória
num lugar inacessível mas ainda assim presente.
Não as queimei mas é como se o tivesse feito
só que o calor das suas cinzas imaginadas
cristalizou-se nos múltiplos fragmentos das imagens.
Escrevi cartas de amor, confesso
e penso que ridículos são os que nunca amaram.
mas só me sinto ridículo por não as poder continuar a escrever,
sinto-me enganado por um tempo que não teve misericórdia
e passou deixando as cartas de amor que ninguém lê.
Tenho-as na gaveta no fundo de um armário
e é como se elas estivessem no fundo da memória
num lugar inacessível mas ainda assim presente.
Não as queimei mas é como se o tivesse feito
só que o calor das suas cinzas imaginadas
cristalizou-se nos múltiplos fragmentos das imagens.
Escrevi cartas de amor, confesso
e penso que ridículos são os que nunca amaram.
Antes de os silêncios serem só os sinais do desespero
eu imaginava-os com corpos de palavras,
tentadoras sereias a prometer viagens.
Antes de o tempo ficar cristalizado na memória
eu era maior do que a minha realidade
e ainda assim sentia vertigens do futuro.
De muitos antes e depois se faz uma vida proibida
e eu sinto que já não tenho mais tempo nem silêncios.
eu imaginava-os com corpos de palavras,
tentadoras sereias a prometer viagens.
Antes de o tempo ficar cristalizado na memória
eu era maior do que a minha realidade
e ainda assim sentia vertigens do futuro.
De muitos antes e depois se faz uma vida proibida
e eu sinto que já não tenho mais tempo nem silêncios.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Sou um vagabundo das palavras,
persigo-as mas sinto que elas são a minha miragem
e estou perdido num labirinto sem paredes,
lugar que sobrou da última residência de Polifemo.
Outrora as palavras eram as fronteiras da minha segurança
e eu era o rei de um reino de sonhos
mas depois os céus desabaram sobre o meu corpo nu
e as palavras não me protegeram do desespero
porque eram elas próprias o desespero.
Outrora a memória não era feita de palavras
mas agora sei que o tempo tem regras próprias
e serei sempre vagabundo da vida que queria ter.
persigo-as mas sinto que elas são a minha miragem
e estou perdido num labirinto sem paredes,
lugar que sobrou da última residência de Polifemo.
Outrora as palavras eram as fronteiras da minha segurança
e eu era o rei de um reino de sonhos
mas depois os céus desabaram sobre o meu corpo nu
e as palavras não me protegeram do desespero
porque eram elas próprias o desespero.
Outrora a memória não era feita de palavras
mas agora sei que o tempo tem regras próprias
e serei sempre vagabundo da vida que queria ter.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Podem-se plantar rosas nos áridos desertos
ou trazer à vida homens que morreram no fundo de si mesmos?
Nos dias de hoje só há milagres tecnológicos,
previsíveis mudanças permitidas pelas leis,
pílulas de esperança medicamente prescritas
para manter o desanimo em banho maria.
Nos dias de hoje as palavras são pesadas e medidas
para dizerem apenas aquilo que se pretende delas
e se alguém ultrapassa os limites da permitida loucura
há métodos eficazes de impor a normalidade.
Continuamos à espera dos D. Sebastiões dos nevoeiros
e entretanto somos felizes à nossa maneira,
transformamos a vida num reality show permanente,
esgotamos o tempo como se não tivéssemos memória.
Quando chegarão os dias da inocência?
ou trazer à vida homens que morreram no fundo de si mesmos?
Nos dias de hoje só há milagres tecnológicos,
previsíveis mudanças permitidas pelas leis,
pílulas de esperança medicamente prescritas
para manter o desanimo em banho maria.
Nos dias de hoje as palavras são pesadas e medidas
para dizerem apenas aquilo que se pretende delas
e se alguém ultrapassa os limites da permitida loucura
há métodos eficazes de impor a normalidade.
Continuamos à espera dos D. Sebastiões dos nevoeiros
e entretanto somos felizes à nossa maneira,
transformamos a vida num reality show permanente,
esgotamos o tempo como se não tivéssemos memória.
Quando chegarão os dias da inocência?
domingo, 17 de julho de 2011
Os dias têm laminas de triturar memórias
e o que sobra é deformado pelas palavras.
Mesmo assim insisto em escrever
como se o que escrevo tivesse real importância
ou possa de alguma maneira recuperar as memórias perdidas.
Os dias alongam-se numa monotonia dolorosa
repetindo as horas, reduzindo os minutos a sonolências
e sobretudo fazendo-me acreditar que o tempo é circular.
Mesmo assim escrevo
ou melhor, é por isso que escrevo;
escrevo para recusar este tempo de cadáveres
e para impedir que em mim a memória se transforme em destino.
e o que sobra é deformado pelas palavras.
Mesmo assim insisto em escrever
como se o que escrevo tivesse real importância
ou possa de alguma maneira recuperar as memórias perdidas.
Os dias alongam-se numa monotonia dolorosa
repetindo as horas, reduzindo os minutos a sonolências
e sobretudo fazendo-me acreditar que o tempo é circular.
Mesmo assim escrevo
ou melhor, é por isso que escrevo;
escrevo para recusar este tempo de cadáveres
e para impedir que em mim a memória se transforme em destino.
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