segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Terminou o meu tempo de Ulisses,
pobre Ulisses que tinha a sua Penélope em Ítaca
e acreditava que a felicidade seria eterna.
Os deuses em que não acredito
castigaram-me por ser humano e livre,
quiseram que me tornasse submisso e crente,
mas mesmo infeliz e sem Penélope
recuso-me a abdicar da minha consciência.
Talvez seja esse o pior castigo,
o não poder abandonar-me a qualquer fé
e aceitar transformar a minha vida em destino.
Se fui Ulisses com Penélope e Ítaca
sou agora apenas eu a sobreviver ao desespero.
Continuo a ignorar os deuses;
não os desafio porque só se combate o que existe,
não os invoco em vão nem os critico,
apenas vivo sem a sua bênção ou maldição.
Não acredito em paraísos aqui ou noutro lugar qualquer,
lugar reservado somente para os obedientes,
aqueles que seguem fielmente a voz dos seus donos.
Terminou o meu tempo de Ulisses
mas uma coisa sei:
não estarei presente no meu funeral.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Minha senhora do nunca mais e da saudade,
Anúncio de todas as impossibilidades,
Rio que subitamente secou na origem,
Imagem que o tempo apaga no espelho
Antes de a memória se fixar no papel

Entretanto a vida continua,
Mil vozes ecoam no vazio,
Inesperados silêncios são sinal de desespero,
Lentas são as horas que se vão acumulando,
Irritantes e solenes, cruéis,
Antecâmaras de uma realidade que ficou suspensa
Sem ti só me chegam os ecos das coisas
e sinto-me como que cego de sentimentos.
Tudo é náusea e sonolência pesada,
imagens daquilo que poderia ter sido
e a sensação absurda de que o tempo é irrecuperável.
Sem ti sou menos eu, a incompletude,
o vazio que preencho com palavras,
as únicas companheiras que me restam.
Eu sei que as palavras são poços que escondem a profundidade
ou armadilhas que usamos para defraudar a passagem das horas
mas nelas posso ter acesso aos teus reflexos.
Eu sei que as palavras podem ser perigosas sereias
que nos desviam das viagens e nos abandonam
depois de nos seus corpos perdermos a pureza do olhar
mas sem elas o silêncio seria mais insuportável.
Sem ti o mundo ficou mais pequeno
e quase que se reduziu às minhas sensações.
sei que lá fora a vida acontece independentemente das palavras,
independentemente de mim
ou de todos aqueles que involuntariamente sofrem
e trazem o peso das coisas sobre as suas costas.
Sei que o que sou e o que sinto
é talvez nada comparado com outras situações
mas nunca quis experimentar o papel de vítima
nem nunca imaginei a tua ausência.
Sem ti há súbitos desertos onde antes havia oásis
e sei agora que isso só era possível por tua causa,
eras tu a água e eu não sei onde matar a sede.
Que farei quando as palavras se tornarem inúteis
e nada mais justificar a tua ausência?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Não sei o verdadeiro nome do desespero
mas calculo que as palavras que o compõem arranham na garganta,
deixam a boca em carne viva
e as feridas nunca cicatrizarão
porque até o tempo é impotente para o combater.
Alguns insistem em que é negro o desespero,
a cor do seu vazio interior,
mas a verdade é que ele é ausência.
Há verdadeiramente muitas coisas que não sei
e preferia não ter que sentir o desespero
porque nos deixa espinhos no lugar dos sentimentos.
Sabes, Emília, com quantos silêncios se preenche o desespero?
Talvez neste momento já conheças todas as respostas
mesmo para aquelas questões que nunca teremos coragem de colocar.
Talvez tenhas conseguido a serenidade que procuravas
e possas finalmente descansar.
Sabes, Emília, apesar de tudo a vida continua
e os dias vão-se sucedendo no calendário.
Talvez estejas apenas à minha espera
e nessa altura já não serão necessárias as palavras.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Mantenho-te viva na memória
Anjo ou deusa que foi real na fugacidade do momento
Rio a desaparecer no lugar da origem
Imóvel movimento que os espelhos já não captam
Anterioridade de um futuro tornado passado.

Enquanto me restarem as palavras para falar de ti,
Múltiplas formas de te ter presente,
Inquieta memória que quero persistente,
Lentamente irei consumindo os dias
Impossibilitado de fazer retornar o tempo
Ainda e sempre teu prisioneiro em liberdade.
Como é que se mede a saudade pelos calendários,
com que relógios podemos recuperar o tempo que perdemos,
de que servem as palavras se os silêncios são totalitários
e magoam na sua cruel inutilidade,
como resistir ao desespero dos dias cancelados
se o único sentimento é o vazio de ti
e a tua ausência grita no interior da voz interrompida?
Adormeço e acordo na mesma náusea surda,
repito os gestos, finjo a esperança congelada
e dir-se-ia que vivo sem saber o que é a vida.
O espelho devolve-me a imagem de uma falsa serenidade,
sinto que crescem as rugas na face da alma
e enfrento a aventura dos dias normais
com a mesma cobardia com que enfrentaria a morte.
Os silêncios e os relógios paralisados ficam prisioneiros das palavras
e tudo é memória e saudade a substituir-te o corpo,
estátua de sal e nevoeiro que temo dissolver-se
perante a crueldade do tempo que não quer saber das minhas mágoas.