Porque não se pode amar eternamente
a não ser nos poemas dos poetas,
porque o tempo que temos é sempre insuficiente
e mesmo assim esquecemo-nos de dizer as palavras importantes,
porque as memórias são constantemente reconstruídas
como se a vida precisasse de razões e argumentos,
porque temos a urgência absurda de atingir o futuro,
os dias adquirem os reflexos do espelho
mas neles somos incapazes de nos ver em corpo inteiro.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
quinta-feira, 18 de março de 2010
Neste país onde a terra acaba e o mar começa
não sou monge senão de mim
sem eremitério, virgem predestinada ou livro de orações.
Tenho enjoos de água, pesa-me já o corpo
depois de ver todas as naus que partiram
e ainda não sei se existem novos horizontes
para além da distância que as crianças imaginam
enquanto brincam com as estrelas na praia.
Também eu já fui criança na minha praia imaginada,
também eu escrevi nas margens da areia
e doeram-me as palavras que se desvaneceram
como se elas fossem pessoas reais e conhecidas.
Passou o tempo das naus e das crianças na praia
e hoje só restam os vestígios das gaivotas,
essas metamorfoses das naus e das crianças,
as gaivotas que vêm pousar no meu telhado
e falam comigo numa linguagem que não entendo
porque entretanto cresci e perdi a magia da infância.
Sou órfão deste país da minha memória
mas começa a chover e fecho a janela
sem saber se lá longe o mar ainda persiste.
não sou monge senão de mim
sem eremitério, virgem predestinada ou livro de orações.
Tenho enjoos de água, pesa-me já o corpo
depois de ver todas as naus que partiram
e ainda não sei se existem novos horizontes
para além da distância que as crianças imaginam
enquanto brincam com as estrelas na praia.
Também eu já fui criança na minha praia imaginada,
também eu escrevi nas margens da areia
e doeram-me as palavras que se desvaneceram
como se elas fossem pessoas reais e conhecidas.
Passou o tempo das naus e das crianças na praia
e hoje só restam os vestígios das gaivotas,
essas metamorfoses das naus e das crianças,
as gaivotas que vêm pousar no meu telhado
e falam comigo numa linguagem que não entendo
porque entretanto cresci e perdi a magia da infância.
Sou órfão deste país da minha memória
mas começa a chover e fecho a janela
sem saber se lá longe o mar ainda persiste.
Somos todos narcisos ainda que envergonhados,
endeusamo-nos mesmo que numa cruz de remorsos,
procuramo-nos nos espelhos embaciados
e as palavras que usamos estão manchadas de intimidade.
Quem não gosta de si está como a bela adormecida
à espera de alguém que lhe desperte a auto-estima,
quem não gosta de si está nu num castelo fechado
e sabe e sente que as paredes não lhe evitam o sofrimento
de ser e de se querer apenas a medo,
quem não gosta de si está já morto em si mesmo,
enterrado num cemitério feito de mágoas e penas.
Somos todos narcisos enfeitiçados pelos nossos reflexos
e prontos a partir em busca de novos horizontes,
espaços para além das nossas fronteiras claustrofóbicas.
endeusamo-nos mesmo que numa cruz de remorsos,
procuramo-nos nos espelhos embaciados
e as palavras que usamos estão manchadas de intimidade.
Quem não gosta de si está como a bela adormecida
à espera de alguém que lhe desperte a auto-estima,
quem não gosta de si está nu num castelo fechado
e sabe e sente que as paredes não lhe evitam o sofrimento
de ser e de se querer apenas a medo,
quem não gosta de si está já morto em si mesmo,
enterrado num cemitério feito de mágoas e penas.
Somos todos narcisos enfeitiçados pelos nossos reflexos
e prontos a partir em busca de novos horizontes,
espaços para além das nossas fronteiras claustrofóbicas.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Os anos passam,
possivelmente tenho rugas nos sentimentos
e os próprios pensamentos estão mais lentos
tal como a memória que se vai inexactidando.
Os calendários vão mudando na parede
e as imagens neles são sempre nostálgicas
porque recordam os dias que não podemos recuperar.
O poeta da pátria com direito a panteão nacional
dizia que se mudam os tempos e se mudam também as vontades.
Outros, porém, preferem falar apenas do futuro
prometendo paraísos ou a felicidade serena
dos que perderam o direito à rebeldia.
Os anos passam insensíveis,
indiferentes aos diferentes rumos das minhas disposições
e quando me olho ao espelho, de relance,
ainda não sei se sou quem me observo
ou se é a própria vida que se espanta
com o que fiz em nome dela.
possivelmente tenho rugas nos sentimentos
e os próprios pensamentos estão mais lentos
tal como a memória que se vai inexactidando.
Os calendários vão mudando na parede
e as imagens neles são sempre nostálgicas
porque recordam os dias que não podemos recuperar.
O poeta da pátria com direito a panteão nacional
dizia que se mudam os tempos e se mudam também as vontades.
Outros, porém, preferem falar apenas do futuro
prometendo paraísos ou a felicidade serena
dos que perderam o direito à rebeldia.
Os anos passam insensíveis,
indiferentes aos diferentes rumos das minhas disposições
e quando me olho ao espelho, de relance,
ainda não sei se sou quem me observo
ou se é a própria vida que se espanta
com o que fiz em nome dela.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Entre os dias e os seus despojos resto eu,
frágil, inseguro, interrompido na viagem.
Esqueço e recordo ininterruptamente
num alucinado carrossel de sentimentos
mas as imagens vão-se desvanecendo na memória
até se transformarem em fantasmagóricas impressões de sombras.
Destino-me por vontade e omissão.
Entre o que escrevo e os silêncios magoados resto eu,
incompleto, dividido, separado de mim.
Uso as palavras para recordar que vivo
mas elas devolvem-me uma realidade deformada.
Destino-me ainda e sempre por teimosia.
Entre a razão e a inconsciência resto eu,
insubmisso, rebelde, desafiador dos deuses.
Faço dos silêncios a minha residência dos segredos
e mesmo assim não estou enclausurado em mim.
Destino-me porque não o fazer seria desistir,
acreditar que a felicidade pode ser dócil
como a promessa de uma obediência abençoada.
frágil, inseguro, interrompido na viagem.
Esqueço e recordo ininterruptamente
num alucinado carrossel de sentimentos
mas as imagens vão-se desvanecendo na memória
até se transformarem em fantasmagóricas impressões de sombras.
Destino-me por vontade e omissão.
Entre o que escrevo e os silêncios magoados resto eu,
incompleto, dividido, separado de mim.
Uso as palavras para recordar que vivo
mas elas devolvem-me uma realidade deformada.
Destino-me ainda e sempre por teimosia.
Entre a razão e a inconsciência resto eu,
insubmisso, rebelde, desafiador dos deuses.
Faço dos silêncios a minha residência dos segredos
e mesmo assim não estou enclausurado em mim.
Destino-me porque não o fazer seria desistir,
acreditar que a felicidade pode ser dócil
como a promessa de uma obediência abençoada.
domingo, 14 de março de 2010
50 anos
Não é ainda o momento de fazer o balanço.
Os balanços fazem-se quando termina um ciclo
e mesmo nessas altura o que interessa é o que há-de vir.
A vida não se quer em fascículos
embora seja mais cómodo avaliar o que fizemos,
preencher as colunas do deve e haver,
petrificarmo-nos num tempo que inevitavelmente já passou.
Não quero fazer balanços ainda que provisórios,
não quero regressar aos meus diários de mágoas
até porque se o fizesse não me reconheceria neles.
Viver já é difícil tarefa
para que percamos tempo a registá-la pormenorizadamente
com o vício do bibliotecário e o desespero dos que ainda não viveram.
Os balanços fazem-se quando termina um ciclo
e mesmo nessas altura o que interessa é o que há-de vir.
A vida não se quer em fascículos
embora seja mais cómodo avaliar o que fizemos,
preencher as colunas do deve e haver,
petrificarmo-nos num tempo que inevitavelmente já passou.
Não quero fazer balanços ainda que provisórios,
não quero regressar aos meus diários de mágoas
até porque se o fizesse não me reconheceria neles.
Viver já é difícil tarefa
para que percamos tempo a registá-la pormenorizadamente
com o vício do bibliotecário e o desespero dos que ainda não viveram.
sábado, 13 de março de 2010
Escolhemos com cuidado as palavras para mentir os sentimentos,
vestimo-las com as cores dos nossos silêncios,
acordamos nelas como se fossem a nossa casa habitual,
aprendemos a usá-las como velhos marinheiros
que ainda sonham com um horizonte por detrás da distância.
Não são apenas máscaras, as palavras,
roupas adequadas às diversas situações,
não são rostos de sombra nem deusas que o tempo envelheceu,
não são códigos secretos, as palavras,
alquimias malignas de apequenar os homens.
Pesamos as palavras como se fossem pérolas ou pedras,
disfarçamo-las com os biombos das vidas por viver,
adormecemos com espaços vazios que elas alimentam.
E mesmo assim são por vezes incómodas, as palavras,
chegamos a desejar a sua ausência
mas quando elas faltam somos apenas as inúteis esfinges
à espera que reinventem a imortalidade.
vestimo-las com as cores dos nossos silêncios,
acordamos nelas como se fossem a nossa casa habitual,
aprendemos a usá-las como velhos marinheiros
que ainda sonham com um horizonte por detrás da distância.
Não são apenas máscaras, as palavras,
roupas adequadas às diversas situações,
não são rostos de sombra nem deusas que o tempo envelheceu,
não são códigos secretos, as palavras,
alquimias malignas de apequenar os homens.
Pesamos as palavras como se fossem pérolas ou pedras,
disfarçamo-las com os biombos das vidas por viver,
adormecemos com espaços vazios que elas alimentam.
E mesmo assim são por vezes incómodas, as palavras,
chegamos a desejar a sua ausência
mas quando elas faltam somos apenas as inúteis esfinges
à espera que reinventem a imortalidade.
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