quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Acusam-me de Narciso por estar prisioneiro de mim
e me ter constantemente na consciência,
acusam-me de obsessivo e inseguro,
afirmam que desisti da viagem
quando só estou suspenso entre o momento e o futuro,
seja ele qual for, sem traços do destino.
Subsisto dos fragmentos da memória,
resisto à maldição das estátuas de sal,
com as palavras combato a aridez do papel
mergulhando nos mistérios da água primordial.
Narciso não sou nem outra qualquer figura mitológica,
não pretendo imitar a vida de ninguém
e se continuo na prisão dos meus limites
não é porque tenha desistido já da liberdade.
As palavras são afinal insuficientes
para desenhar os contornos do silêncio
e explicar as circunstâncias de uma vida.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Os heróis antigos transformaram-se em estátuas
e persistem nas histórias que já ninguém recorda
porque agora os heróis são mais instantâneos
e a fama dura apenas o tempo das imagens.
As naus apodreceram e os portos estão abandonados
quem ainda sonha com os impérios
são aqueles que estão viciados nos nevoeiros
e trocam tudo por um passado embalsamado
mesmo que povoado de cadáveres.
Os oceanos estão todos catalogados,
substituíram-nos por imagens em 3 D
que mumificam as sensações que possamos ter delas
e nos transmutam a nós mesmos em meros espectadores,
estátuas imóveis só com os olhos em movimento.
Se solicitarem um poeta épico para cantar as glórias passadas
escolham um cego como o velho Homero
ou então um louco como o habitual D. Sebastião,
mistura de D. Quixote com Sancho Pança,
ridículo cavaleiro que povoa os nevoeiros
ainda e sempre à procura da Dulcineia
ignorando que entretanto as princesas se tornaram mulheres.
Se precisarem de epopeias e narrativas heróicas
coloquem todas as estátuas numa praça,
recuperem os templos antigos e renovem os altares,
convertam a morte em elogio póstumo
e atrasem os relógios ou pelo menos encravem os mecanismos
com a areia que trazem no lugar do corpo.
Os mundos de hoje são menos aquáticos,
as distâncias apequenam-se num ecrã que já foi mágico,
com heróis e de loucos distorce-se a memória
e só nos resta recuperar o silêncio que ainda existe nas palavras.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Acaba em silêncio o que começou na água,
onda, concha, peixe das profundidades,
estrela do mar, coral e gruta submarina.
As palavras naufragadas pesam-me nos bolsos,
transporto-as como uma relíquia desconhecida,
viajo entre a noite e o dia
com o corpo das sereias no exterior do espelho.
Entretanto converti o tempo num velho astrolábio
que me indica a localização dos astros
mas me faz chegar irremediavelmente atrasado.
As horas que há são aquelas que desperdicei
e nunca aprendi matemática suficiente para contabilizar os minutos
e impedir que tudo seja exterior a mim.
A água apaga as margens da memória,
dissolve-me o corpo num redemoínho de algas
e mesmo quando recupero do pesadelo original e único
há pedaços de algas a decomporem-se nos meus olhos
impedindo-me de ver para além dos horizontes de água.
O silêncio não substituiu a água,
transformou-a em mosteiro ao redor de mim,
emparedou as janelas e trocou o lugar das portas
obrigando-me a não saber se estou dentro ou fora
nesta casa fronteira entre o oceano e eu próprio.
Água e silêncio é tudo o que resta do meu corpo
e se acreditam que mesmo assim eu existo
é porque se deixam enganar pelos espelhos,
perigosos instrumentos de aquarizar os dias.
Os piores labirintos são os das palavras
porque neles está e escondido o nosso próprio monstro,
aquele que nos conhece desde o nascimento,
aquele que nos pode aniquilar os sonhos
mantendo-nos vivos num corpo de cadáver.
Os piores labirintos são os dos silêncios,
labirintos de ausências,
vestígios das esfinges a guardar os desertos.
A memória recusa-se a voltar a Creta e aos seus fantasmas
porque os heróis antigos perderam-se no esquecimento
quando Ariadne deixou de tecer os seus novelos.
A memória é herdeira de outras viagens de Ulisses
mas os monstros e as sereias foram vencidos pelo tempo
e os únicos vestígios são as palavras que escrevo
juntamente com os silêncios que vestem o meu corpo,
tudo labirintos que a minha memória esquece
na sua tarefa de desistir da imortalidade.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Nem todos os silêncios têm a mesma intensidade.
Sei-o porque eu e eles somos velhos companheiros,
tão velhos quanto a minha idade mo permite
ou a indulgência de quem viu nascer o mundo.
Os silêncios são os vários rostos de uma mesma realidade.
Nos espelhos de mim
cheguei a confundir os seus reflexos com a minha imagem,
nos espelhos de mim vesti o meu corpo de silêncio
e usei os sentimentos como facas afiadas
separando a superfície do que não há por baixo,
expondo as múltiplas cascas do meu ser.
Diz-me o silêncio que mentem os que o querem fúnebre
mas eu sei que até as mentiras têm alguma verdade,
sei-o porque há silêncios becos-sem-saída,
silêncios com a consistência dos nossos maiores pesadelos.
Diz-me o silêncio que está cansado de usarem o seu nome
mas o pior cansaço está no perder dos horizontes
e ficar subitamente sem barco, sem mar e sem viagem.
Os silêncios são os vários rostos de mim mesmo,
os silêncios são feitos com todas as palavras omitidas
e por isso posso trazê-los a este poema,
sentar-me com eles como se estivesse numa mesa de café
e esquecer-me de mim para fingir que vivo.
Fascinam os cães que desenterram os cadáveres
e mesmo depois de terem assassinado todas as crianças
numa repetição macabra do massacre de Herodes
e terem destruído a esperança dos que sobreviveram
continuo o espectador sereno e silencioso
sentado no café sem mesas nem cadeiras,
continuo a escrever nos cadernos vermelhos
mesmo que já não haja ninguém para os ler.

Não sou insensível aos mortos nem à morte,
não julgo que, por ser poeta, sou imortal
e escaparei às balas e ao ódio dos homens,
não transformei a minha vida num volume de poesias
mas confesso que me fascinam os cães famintos
e fico a olhá-los como se tudo se resumisse a eles.

sábado, 1 de maio de 2010

As coisas que se escrevem
nunca são verdadeiramente aquilo que era para ser escrito
porque há um abismo entre as palavras e as intenções,
um nevoeiro que transfigura as perspectivas,
um biombo entre nós e os nossos reflexos.
As coisas que se escrevem são apenas resíduos,
restos que sobraram das vidas por viver,
fragmentos dos gestos e sentimentos,
esfinges que marcam a fronteira entre o corpo e o deserto.
Eu escrevo aquilo que sei e que não sei,
aquilo que sinto e o que finjo que sinto
ou até mesmo o que deveria sentir.
Eu escrevo porque sim e porque não,
porque existo e porque me canso de existir,
com todas as razões que depois invento
e com a ausência de razões, a inevitabilidade.
Escrevo, escrevo-me, desabito-me
e as palavras são refúgio e máscara,
rios que de súbito secam no papel
e substituem as sereias e os seus fantasmas.
As coisas que escrevo são inúteis na sua verdade
e porque mentem de mim a imagem que não sou
são espelhos onde me perdendo me encontro.
As coisas que escrevo continuam minhas
e no entanto emigram para outras paisagens
na repetição de uma viagem que nunca fiz.
As coisas que escrevo estão escritas,
esqueço-as no fundo das gavetas da memória
ou são longínquas presenças que ainda não imagino
mas que sem existir são já parte da minha existência.
Escrevo como missionário sem missão,
centrado em mim e no entanto livre,
tanto quanto um homem pode ser,
livre de me reinventar com as palavras
num esforço permanente de alcançar a felicidade.