Continuo obstinado a escrever-me nos cadernos dos dias.
Desenterro da memória pedaços desconexos de mim
mas não me consigo reconstituir em corpo inteiro
porque entretanto perdi o meu corpo
num qualquer cruzamento do tempo.
Desconfio dos espelhos concêntricos
e prefiro ser mestre e discípulo das palavras,
cativo-as, submeto-me a elas, convoco-as
até que elas dêem sentido às horas que passam.
Encontrar-me-ei no espaço entre as palavras e os silêncios
mas isso é tema que os meus cadernos não contemplam.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Éramos dois no pedaço da praia deserta. Amanhecia.
Teriam sido fáceis as palavras
mas naquele tempo tudo era novidade
e os nossos corpos faziam persistir o momento.
Nos teus olhos eu não me limitava a ver o meu reflexo
e, se me perguntassem, diria que acreditava no amor.
Continuávamos os dois na mesma praia. Anoitecia.
As palavras eram pesadas como pedras,
eu já não te olhava nos olhos com medo do inevitável
e as despedidas foram breves e inúteis.
De nós os dois nem sequer a praia sobreviveu.
Não é noite nem dia. O tempo passa simplesmente
com aquela crueldade que julgo pertencer aos deuses.
Não posso ter remorsos por ter tido o que tive,
não posso lamentar o tempo em que fomos dois na praia.
Qualquer dia vou libertar a areia que guardei dessa praia
e então talvez o tempo deixe de ser a minha prisão.
Teriam sido fáceis as palavras
mas naquele tempo tudo era novidade
e os nossos corpos faziam persistir o momento.
Nos teus olhos eu não me limitava a ver o meu reflexo
e, se me perguntassem, diria que acreditava no amor.
Continuávamos os dois na mesma praia. Anoitecia.
As palavras eram pesadas como pedras,
eu já não te olhava nos olhos com medo do inevitável
e as despedidas foram breves e inúteis.
De nós os dois nem sequer a praia sobreviveu.
Não é noite nem dia. O tempo passa simplesmente
com aquela crueldade que julgo pertencer aos deuses.
Não posso ter remorsos por ter tido o que tive,
não posso lamentar o tempo em que fomos dois na praia.
Qualquer dia vou libertar a areia que guardei dessa praia
e então talvez o tempo deixe de ser a minha prisão.
A pedra tem remorsos da ferida que abre na cidade,
remorsos que escorrem dos cartazes rasgados
e das luzes coadas pelas janelas semi-fechadas.
As palavras recusam aprofundar os nevoeiros
e são apenas sombras que encobrem outras sombras,
vestígios de silêncio e cadáveres contra vontade.
Com a pedra das palavras imagino a cidade,
reconstruo-a rua a rua, casa a casa
mas deixo por acabar o pátio da minha infância.
Quem me pode censurar pelo musgo que cobre a pedra
e pelas palavras que nunca fui capaz de usar?
Quem, a não ser eu, pode compreender a estátua
que vigia impassível a entrada e a saída da cidade?
Confesso, sou o que resta da cidade imaginada
e da poeira do meu corpo poderão ressuscitar sonhos.
remorsos que escorrem dos cartazes rasgados
e das luzes coadas pelas janelas semi-fechadas.
As palavras recusam aprofundar os nevoeiros
e são apenas sombras que encobrem outras sombras,
vestígios de silêncio e cadáveres contra vontade.
Com a pedra das palavras imagino a cidade,
reconstruo-a rua a rua, casa a casa
mas deixo por acabar o pátio da minha infância.
Quem me pode censurar pelo musgo que cobre a pedra
e pelas palavras que nunca fui capaz de usar?
Quem, a não ser eu, pode compreender a estátua
que vigia impassível a entrada e a saída da cidade?
Confesso, sou o que resta da cidade imaginada
e da poeira do meu corpo poderão ressuscitar sonhos.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Somos do tamanho das alturas a que chegam os nossos sonhos
e ainda maiores porque herdeiros do infinito
e da mesma matéria de que é feito o pó das estrelas.
As vidas não se fazem com lamentos
nem os espelhos podem albergar a dimensão humana
porque são feitos com a carne das esfinges.
Mesmo quando querem que os desertos sejam o nosso horizonte
há muita mais distância do que aquela que pintam nas paredes
e a viajem poder ser também o retornar à origem.
e ainda maiores porque herdeiros do infinito
e da mesma matéria de que é feito o pó das estrelas.
As vidas não se fazem com lamentos
nem os espelhos podem albergar a dimensão humana
porque são feitos com a carne das esfinges.
Mesmo quando querem que os desertos sejam o nosso horizonte
há muita mais distância do que aquela que pintam nas paredes
e a viajem poder ser também o retornar à origem.
Apocalipse
Avançam as matilhas com as garras preparadas
e trazem consigo os nevoeiros do passado,
as sombras dos dias sombrios e desesperados,
o que restou dos sonhos triturados.
O futuro tem forçosamente que ser a repetição do que já foi
e o paraíso é uma nesga de terreno ao sol
nem que seja um simulacro de jardim por detrás das grades.
São múmias que apenas adensam o deserto em nós
e chegam a convencer-nos de que a esperança é um desperdício
porque já está tudo entretecido na vontade dos deuses.
e trazem consigo os nevoeiros do passado,
as sombras dos dias sombrios e desesperados,
o que restou dos sonhos triturados.
O futuro tem forçosamente que ser a repetição do que já foi
e o paraíso é uma nesga de terreno ao sol
nem que seja um simulacro de jardim por detrás das grades.
São múmias que apenas adensam o deserto em nós
e chegam a convencer-nos de que a esperança é um desperdício
porque já está tudo entretecido na vontade dos deuses.
Os maiores dramas passam-se no silêncio
e não há imagens deles a preencherem os ecrãs.
É impossível escrever todos os nomes no muro das lamentações
e algumas vezes as vítimas e os carrascos são os mesmos
aproveitando a mudança da situação
e aperfeiçoando os gestos e os gritos.
De tanto se mediatizar a violência
transformou-se a dor em hábito banal
e construíram-se edifícios de desculpas
para confirmar que a morte de alguém é apenas estatística.
Os maiores dramas não são publicitados
porque só o sofrimento encenado é espectáculo
e as vítimas que não são fotogénicas
devem absolutamente permanecer no anonimato.
e não há imagens deles a preencherem os ecrãs.
É impossível escrever todos os nomes no muro das lamentações
e algumas vezes as vítimas e os carrascos são os mesmos
aproveitando a mudança da situação
e aperfeiçoando os gestos e os gritos.
De tanto se mediatizar a violência
transformou-se a dor em hábito banal
e construíram-se edifícios de desculpas
para confirmar que a morte de alguém é apenas estatística.
Os maiores dramas não são publicitados
porque só o sofrimento encenado é espectáculo
e as vítimas que não são fotogénicas
devem absolutamente permanecer no anonimato.
sábado, 21 de maio de 2011
O Homem
O Homem:
esse bicho aflito,
esse animal absurdo,
essa fronteira ambígua entre o nada e o infinito.
Enigma, equívoco,
erro de cálculo dos deuses
ou apenas um pormenor do Universo?
Sísifo ou Prometeu,
Ulisses que recusa a submissão aos deuses
e faz da viagem os alicerces da liberdade,
o Homem não cabe numa equação cabalística
e é mais profundo do que qualquer silêncio.
O tempo e a memória são a nossa condição
e temos a obrigação de renovar a esperança.
esse bicho aflito,
esse animal absurdo,
essa fronteira ambígua entre o nada e o infinito.
Enigma, equívoco,
erro de cálculo dos deuses
ou apenas um pormenor do Universo?
Sísifo ou Prometeu,
Ulisses que recusa a submissão aos deuses
e faz da viagem os alicerces da liberdade,
o Homem não cabe numa equação cabalística
e é mais profundo do que qualquer silêncio.
O tempo e a memória são a nossa condição
e temos a obrigação de renovar a esperança.
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